'Isso te interessa?' e a ciranda de papéis

Além de Oxigênio, a trupe acaba de estrear uma nova criação na capital paranaense. Encenação de um texto da francesa Noëlle Renaude, a peça Isso Te Interessa? entrou em cartaz na última semana. Nunca antes montada por aqui, Renaude é um dos nomes da nova geração de autores de seu país. Escolha que configura mais um passo do grupo em sua trilha pela dramaturgia contemporânea.

O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2011 | 03h08

Em sua aparência, Isso Te Interessa? não se coloca como um texto desconstruído. A trama está lá para ser seguida: um passeio pelas três gerações de uma família. O achado da autora está em sua maneira de desdramatizar a história. Um jeito de tornar muito banal o que deveria ser uma saga quase épica.

O elenco é o mesmo que aparecia em Vida, com Nadja Naira, Giovanna Soar, Ranieri Gonzales e Rodrigo Ferrarini. Na encenação, eles ocupam os papéis de pai, mãe, filhos e um cachorro. Conforme os anos correm, cumprem uma ciranda. A filha se torna mãe. O pai assume o lugar do cão. Os personagens não são propriamente indivíduos, mas os lugares que ocupam.

Na balança, todos os acontecimentos têm o mesmo peso. As férias no balneário não são anunciadas de forma diferente da morte da mãe ou da gravidez da filha. Tudo soa prosaico, banal, desimportante. Um jogo que lança uma lente aumento sobre os rótulos que colamos às sensações. E aos fatos que elegemos como os mais importantes de nossas vidas. "A morte de alguém não é necessariamente trágica", comenta o diretor Marcio Abreu. "Assim como um nascimento não significa obrigatoriamente uma alegria."

Existem rastros do processo de Oxigênio que despontam na nova montagem. A condução dos intérpretes é um desses elementos que retorna: permanece o embate entre o plano narrativo e a sugestão das personagens, uma oscilação permanente entre distanciamento e profundidade.

Outra imagem a ser novamente convocada é a da proposição musical. Se em Oxigênio repetiam-se trechos do texto, em Isso Te Interessa? são determinadas imagens que retornam ao longo da peça. Uma forma de cobrir de novos significados aquilo que parecia já ter sido decodificado. / M.E.M.

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