Ismênia Coaracy cria amplo leque de temas e cores

Baralhos antigos, lagartas de jardim, o homem chegando à Lua, histórias meio mágicas e meio morais como a do livro A Revolução dos Bichos: estes são os alimentos da pintura de Ismênia Coaracy, que, aos 82 anos, possui uma vitalidade e um encantamento em relação à arte surpreendentes. Para ela, tudo pode transformar-se em pintura. Em seus mais de 50 anos de carreira, experimentou diversos caminhos, recusando-se sempre a seguir uma mesma e contínua trajetória.Talvez a definição que mais abranja a obra da artista esteja contida numa frase escrita por Geraldo Ferraz em 1963, que identifica algo de gestaltiano na pintura de Ismênia: "É inútil ouvir explicações para estes ritmos de forma conduzidos eficientemente tanto pelo desenho quanto pela cor, entrosando-se em somas de tempo e de espaço. As emoções - responsáveis pelo caráter expressivo que predomina em sua obra - ou os estímulos externos estão sempre fertilizando sua criatividade.A pintora conta que sempre se interessou pela forma e pela cor, mesmo sem ter consciência de que se tornaria artista plástica. Seu início foi tardio, em 1945, quando tinha 28 anos e já era mãe de dois filhos. "Na época, existiam apenas três galerias na cidade: a Domus, onde expus com o grupo Guanabara, a Atrium e outra que expunha coisas mais acadêmicas", conta a artista, que acompanha de perto as evoluções da arte brasileira dos últimos 50 anos."Eu acompanhava tudo, mas não queria ficar por dentro dos esquemas que estão resolvidos", diz Ismênia, demonstrando, mais uma vez, a origem de sua extrema diversidade. No início, ela se dedicou à pintura com modelo vivo, pintou paisagens ao ar livre na Freguesia do Ó. "O difícil era enquadrar uma paisagem numa tela de 30 x 40. Resolvi observar mais do que pintar. Olhava tudo com a maior atenção. Olhava dentro das cores, procurava nas paredes envelhecidas, na sua bela pátina, as cores que se compunham. Procurava nos trancados das calçadas, nas cascas das árvores, no movimento das nuvens, e, assim, fui adquirindo um treino visual que me permitia registrar as cores e as formas recriando depois tudo o que via", afirma ela, em frase contida no roteiro do filme Kores, um projeto de seu filho, Afonso Coaracy. O diretor também está preparando um filme sobre o meio século de carreira da pintora - celebrado no ano passado com uma retrospectiva no Museu da Escultura Brasileira (MuBE) - que já está em processo de montagem.Mas rapidamente Ismênia percebeu que não gostava de copiar. "Queria trabalhar como eu via e sentia." Teve sua fase abstrata - que abandonou rápido por considerar muito fácil, sem emoção -, realizou encantadoras pesquisas com colagens, porém jamais abandonou o cavalete e a pintura a óleo (diz detestar a tinta acrílica por sua rapidez). Adepta dos experimentalismos, Ismênia chegou a fazer filmes de arte em super 8, como O Princípio e o Fim de uma Obra de Arte, em que filmou duas pedras de gelo ao longo de um dia, sobre as quais ia acrescentando cores à medida em que iam derretendo.Apesar de ter tido alguns mestres, como Lívio Abramo, com quem aprendeu a arte da gravura, seu caminho foi basicamente autodidata. Ela conta com orgulho que, ao pedir que Yolanda Mohalyi lhe desse aulas, ouviu da pintora que ela não tinha nada a lhe ensinar e que ela deveria seguir sozinha. O mesmo aconteceu com Takaoka, que teria lhe dito: "Tem gente que faz tintura. Você faz pintura."Atualmente, vem se dedicando à série inspirada nas cartas de um velho baralho, guardado numa linda caixa de metal, que comprou em uma de suas viagens aos Estados Unidos. Nessas pinturas, ela recria com um traço rápido, em que importa menos a precisão do que a força da imagem, os reis, rainhas, coringas e valetes.Pinacoteca - No segundo andar de sua pequena casa no bairro de Pinheiros, onde vive e trabalha, há um quarto lotado de quadros, que compõem um vasto panorama de sua rica produção, dos quais ela fala como se fossem filhos. Ao contrário de muitos de seus colegas, Ismênia não tem grandes veleidades em relação ao mercado. Se recusou a criar uma marca para agradar o circuito e confessa que fica com saudades quando vende uma obra. Também não tem obsessões. "Sinto uma necessidade permanente de renovação", afirma ela, acrescentando que acha que quando "o artista entra num esquema determinado, ele se perde". E reitera que se sente melhor assim, sem ser refém do público ou do mercado. Isso não quer dizer que ela não tenha exposto - e muito. É impressionante o currículo de exposições nacionais, internacionais e prêmios angariados ao longo desses mais de 50 anos pela artista.Uma das séries mais impactantes dessa pequena pinacoteca é aquela do final dos anos 60, em que estão retratados estranhos seres que parecem saídos de uma mitologia bastante pessoal. Uma dessas telas (que mescla pintura e colagem) chama-se Os Inocentes e é inspirada no filme homônimo. A imagem dessas duas crianças, ao mesmo tempo angelicais e diabólicas, ilustra o verbete de Ismênia na Delta Larouse.A cor é o grande elemento da pintura de Ismênia. Ela usa todas as variantes da paleta, de acordo com o que tem em mente. O mesmo acontece com a pincelada e o desenho. Algumas de suas obras têm a liberdade e a inconsciência que encontramos nos membros do Grupo Cobra; outras têm um acabamento cuidado, uma superfície extremamente trabalhada; há também exercícios líricos mais superfíciais e decorativos, como seus pássaros e peixes de cores alegres. Se são menos instigantes do ponto de vista da crítica, essas obras são do gosto do público.Além da paixão pelas cores e da forte tendência expressionista, há na obra de Ismênia uma outra característica comum: os impressionantes olhos de seus personagens. Quer eles sejam humanos ou animais, é nos olhos que estão contidos toda a expressão e intensidade.

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