Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Ismael Ivo relê ‘Sagração’ à luz de uma ‘nova primavera’

Coreógrafo apresenta ‘No Sacre’, que dialoga com a criação centenária de Stravinski e Nijinski

Helena Katz - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2013 | 20h38

No ano em que o mundo comemora os 100 anos da Sagração da Primavera de Stravinski/Nijinsky, Ismael Ivo apresenta No Sacre, sábado (17) e domingo (18), no Sesc Pinheiros. Na semana passada, a obra encerrou o ImpulsTanz, festival internacional que Ivo criou em Viena, em 1984.

Trata-se da primeira produção da Biblioteca do Corpo, projeto de formação de bailarinos que Ivo iniciou no período em que dirigiu a Bienal de Dança de Veneza, e agora transferiu para Viena. Reúne 24 jovens vindos do Brasil, Argentina, Estados Unidos, Canadá, Polônia, China, Itália e Áustria, que passaram seis intensas semanas fazendo aulas de técnica Forsythe (Improvisation Technology) e também com Janet Panneta, da companhia de Pina Bausch. Além das aulas de técnica, eles estudam também os repertórios de Anne Teresa de Keersmaeker, de Wim Vandekeybus e do próprio Forsythe. Dez deles são brasileiros, selecionados em três dias de audições realizadas no Sesc Bertioga, em março. O projeto se propõe a oferecer uma experiência artística internacional ao jovem bailarino de dança contemporânea e é financiado pelo Sesc São Paulo, Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, Festival ImpulsTanz e Performing Arts School de Hong Kong. Participam dele dez brasileiros.

No Sacre é uma espécie de indagação coreográfica, e não uma coreografia”, diz ele, em entrevista por Skype. “Pergunto se estamos seguros da próxima primavera, com o planeta destruindo-se dessa maneira. Nunca se viu uma sucessão de terremotos, maremotos, tsunami, uma onda de calor tão mortal como a desse ano na Europa. Tenho dito que somos os últimos dinossauros”, completa.

Tudo começa com um ritual dionisíaco. O corpo em possessão por 20 minutos, uma procissão que vem da rua para o teatro. “Em Viena, foi um escândalo”, conta Ivo. “Temos depois o embalsamamento dos corpos em mel, inspirados por aquilo que foi encontrado em templos antigos. Mais adiante, eles ficam quinze minutos de costas porque vejo as costas como um sensor de uma possível catástrofe. Essa cena parte do solo de Trisha Brown If You Couldn’t See Me, de 1994.”

Até esse momento, ainda não nos encontramos com a música de Stravinski, somente com duas composições de Andreas Bick, que gravou o degelo de icebergs no Polo Norte, uma invasão de insetos em uma plantação na África e o movimento da larva de um vulcão em Honey Scene e Insect Invasion. Quando entra a Sagração, os bailarinos ficam sem se mover, só de olhos fechados: “Disse a eles: vocês não vão dançar a Sagração, porque serão soterrados por essa música. Vocês vão lutar pela sua sobrevivência. E resolvi complicar um pouquinho mais a vida deles fazendo cair uma chuva de 350 mil pétalas de rosa, que vão transformando o palco em uma piscina. O chão vai impossibilitando os movimentos”.

Para Ismael Ivo, essa cena tem a função de nos fazer refletir em um bonito, que é tão bonito que chega a perturbar, não deixa caminhar. “Tem uma coisa fundamental nesta obra: não existe vítima. Se você nem garante que virá uma próxima primavera, por que vai se sacrificar? Pelo que vai se sacrificar?”

Para Ivo, eles estão na Biblioteca do Corpo, na qual cada um é um livro-corpo, com um tipo de formação que promoveu informações diferentes em cada corpo. “Esse projeto encoraja o desabrochar dos talentos artísticos a partir das potencialidades de cada um e já estamos planejando a sua próxima edição, em 2014.”

 

O SACRE

Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, Pinheiros. Telefone: 3095 9400. Sábado, 20h; Domingo, 18h. R$ 24

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