Isla Madrasta encena Eugène Ionesco

O Teatro de Arena Eugênio Kusnet acolhe agora um ótimo projeto sob o título de Harmonia na Diversidade. Espetáculos baseados em peças de jovens dramaturgos ou em textos consagrados da dramaturgia mundial estão sendo levados à cena com o mínimo de recursos materiais e o máximo de empenho artístico. Com esse espírito, fiel à origem histórica do Teatro de Arena de São Paulo, o dilapidado teatrinho da Teodoro Baima (patrimônio público) está se tornando um refúgio não só da vanguarda contemporânea, mas também das vanguardas de outrora que, uma vez perdida a aura novidadeira, deixam de interessar aos produtores de um teatro organizado comercialmente. Quem representa por gosto, e não por dever de ofício, pode revisitar obras que, embora não tenham perdido o gume da ruptura, foram absorvidas pela historiografia do teatro a ponto de criar a ilusão de que se acomodam bem nos escaninhos da tradição.É o caso das peças de Eugène Ionesco. Repercutiram sobre a dramaturgia da segunda metade do século 20, suscitaram discussões ardentes e influíram nas opções estéticas de muitos dramaturgos importantes, mas perderam o protagonismo no repertório de grupos e companhias profissionais. Há muitos motivos para esse esquecimento e um deles é trivial: as produções com um olho no mercado só ousam o insólito quando é o último grito da moda, ainda emoldurado pelo escândalo. Outra razão, de raízes mais profundas, reside na dramaturgia de Ionesco, cujo cerne é mais filosófico do que ideológico. A ostensiva acidez das peças posicionando-se na recusa do engajamento e preferindo questionar o espanto diante da existência repele, naturalmente, artistas que se preocupam com a investigação das contingências históricas.Nesse sentido, o grupo Isla Madrasta, ao representar Ionesco, acrescenta ao leque de opções do projeto que integra a vertente da angústia existencial, ao mesmo tempo em que outros grupos se ocupam da contingência histórica. O Novo Inquilino, peça de l955, é, como outras peças desse autor, uma ultrapassagem do dramático. Há de início uma situação cotidiana: um homem providenciando a transferência do seu mobiliário para o apartamento que acaba de alugar. A zeladora que entra em cena como primeira figura da ação é extraída do repertório da comédia de boulevard. É uma exacerbação do coloquialismo popular, estereótipo da concierge intrometida do folclore parisiense. Fala por falar, tenta obter o controle do novo inquilino sugerindo comportamentos, fofocando, tentando de alguma forma administrar a situação. Seu discurso tem o efeito de rememorar a convenção teatral que será contrastada pela chegada do locatário.Bem arrumadinho, lacônico, o senhor que entra em cena ocupa-se apenas do planejamento da mudança e do arranjo material da moradia. Seus pertences começam a chegar, expulsam da cena o resquício da comédia de costumes e, proliferando-se, tomam o lugar das figuras humanas. Os objetos, que de início são carregados com uma certa verossimilhança, tomam a liderança da ação dramática. Não são o que a aparência sugere, não desempenham funções, entram em cena por automatismo. O fluir das coisas é um mecanismo com desígnio próprio tornando inútil ou desnecessária a reação psicológica ou mesmo o esforço comunicativo da linguagem oral.O laconismo do protagonista é, por esse motivo, um comportamento mais adequado ao automatismo do mundo sensível do que à loquacidade da zeladora. A mulher que ainda olha para fora refere-se ao passado, provoca o interlocutor a um confronto, é resíduo de outro teatro, aquele que constrói seu sentido através da atividade dialógica. Nessa peça (nem todas as peças de Ionesco abordam a passividade da personagem do mesmo modo), a serena aquiescência à invasão dos móveis é prova de que a ação se transferiu dos seres humanos para as coisas inanimadas. A ação não transforma, acontece.A passividade dos personagens e a atividade das coisas é o que nos garante um certo nível de compreensão da peça. Por essa razão, o temor da apatia cênica prejudica bastante a encenação dirigida por Ipojucan. Construindo os personagens da zeladora e dos moços de frete como arquétipos cômico-grotescos, a direção acrescenta cor, volume e movimentos dinâmicos ao espetáculo, mas, em compensação, atenua a convenção teatral que opera por contraste e de onde se desprende a atuação insólita dos objetos. Um certo grau de verossimilhança, ou pelo menos de semelhança com a despretensiosa comédia de costumes, faz falta para que possamos avaliar a gradação do estranhamento. É aos poucos que o mecanismo de proliferação de objetos se instala e toma conta da peça.Há ainda desafios técnicos que o formato da arena não colabora para solucionar. É importante, nota a rubrica, que o espaço seja de início realista porque é o real que se exalta, se automatiza e acaba por tornar-se protagonista do universo dramático. Nesse espetáculo, a janela é mera indicação, elemento vazado projetando-se sobre a platéia, os objetos não podem "invadir" misteriosamente a cena porque não há uma definição precisa de bastidores (problema que poderia ser revolvida através recursos de iluminação) e, pela mesma razão, os carregadores não podem contrariar as expectativas do público com entradas e saídas contraditórias. No espaço em arena tudo é mais ou menos aleatório e boa parte do sentido atribuído aos deslocamentos fica incompreensível. Pensando bem, há mais uma razão justificando a raridade da presença de Eugéne Ionesco no nosso panorama teatral: não é sopa montar essa peça.O Novo Inquilino. Farsa. De Ionesco. Direção Ipojucan. Duração: 60 minutos. Sábado, às 19 horas; domingo, às 18 horas. R$ 10,00. Teatro de Arena Eugênio Kusnet. Rua Teodoro Baima, 94, tel. 256-9463. Até domingo.

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