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Ish

Às vezes me pergunto se Ish Kabibble e o bobo da Mad não teriam encontrado o segredo da felicidade

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

19 de abril de 2020 | 03h00

Ish Kabibble era o nome artístico de um comediante e trompetista americano que fez algum sucesso no rádio, no cinema, no começo da TV e no circuito de vaudeville judaico, a partir dos anos 30. A origem do seu pseudônimo era incerta. Ish Kabibble seria uma adaptação do iídiche Isch Ga-Bibble, que significaria “Eu, me preocupar?”. O próprio Ish usava essa tradução, e seu personagem representava a recusa em reconhecer a gravidade de qualquer situação, com uma cara de abobado alegre correspondente. Depois se descobriu que não existia nenhuma expressão em iídiche parecida com Isch Ga-Bibble, o que também não preocupou o Ish. Quem tem idade para se lembrar da revista Mad (ainda existe?) deve lembrar que o mascote da revista tinha a mesma cara de alienado contente do Ish e repetia o mesmo bordão: “Eu, me preocupar?”. Como se vê, os bobos despreocupados são quase uma dinastia.

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Às vezes me pergunto, e não me respondo porque não falo com estranhos, se Ish e o bobo da Mad não teriam encontrado o segredo da felicidade que nos ilude. A chave do paraíso da inconsciência sem culpa ou consequência. A licença para não se importar – com nada! Quem se preocupa com as curvas nos gráficos que mostram quantos o vírus pegou e quantos o vírus matou não tem lugar no cérebro para outra coisa, precisa aprender com o Ish que curvas nos gráficos são só curvas nos gráficos, não são gente, e que devemos seguir com as nossas vidas. O Ish nos ensina a seguir com nossas vidas.

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Quem ainda tem espaço no cérebro para pensar em outra coisa que não as curvas nos gráficos talvez conclua que está vivendo dentro de uma mera coincidência. As coincidências, como as curvas nos gráficos, significam o que o seu cérebro quiser que signifiquem, nada ou tudo. É uma coincidência que o aparecimento do vírus assassino tenha coincidido com a presença do lamentável Trump na presidência dos Estados Unidos e do lamentável Bolsonaro na presidência do Brasil. Um governa o mundo, o outro só um quintal, mas como doem. O Ish, se se preocupasse com essas coisas, diria que não existe coincidência, que coincidência é o nome de guerra do destino, e se ninguém pode mudar o destino, então por que se preocupar? Trump e Bolsonaro são marionetes do destino.

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O Ish nos mostra o caminho para a ignorância, que é o outro nome da alegria. Atrás dele! 

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