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Iscas literárias

Num concurso literário, tudo pode acontecer. Até uma derrota de Guimarães Rosa

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2020 | 03h00

Eu tinha lido a recomendação de Carlos Drummond de Andrade a um jovem escritor, de que não se deixasse seduzir pela miragem dos concursos literários - nos quais, explicou, o máximo que lhe pode acontecer é ser premiado por jurados que o seu senso crítico não premiaria. Impossível não concordar com o cáustico poeta, que jamais concorreu nesse tipo de certame. Foi distinguido várias vezes, mas à revelia, sem nunca disputar - e até a contragosto: durante o governo Geisel, chegou a recusar, por motivos de consciência, um galardão que lhe conferiu a Fundação Cultural do Distrito Federal.

Nunca de núncaras, então, como no verso que fecha seu Amar-amaro? Bem, houve uma exceção: em 1922, o jovem Drummond batalhou e levou os 50 mil-réis de um concurso da revista Novela Mineira, com o conto Joaquim do Telhado, que não entraria em nenhum de seus livros. Grana suficiente, contabilizo agora, para fazer uma assinatura anual do Jornal do Brasil, sobrando ainda 5 mil-réis para duas ou três entradas de cinema. Hora dessas vou baixar aos arquivos e tentar saber quais foram os jurados que concederam a Carlos Drummond de Andrade, então à beira de seus 20 anos, o único prêmio literário ao qual se habilitou.

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Contra algumas evidências, e baixando bem a bola, também este cronista já teve 19 anos, e com essa idade levou os dois primeiros lugares num concurso de contos da Prefeitura de Belo Horizonte, com direito a publicação no Estado de Minas, o mais prestigioso dos jornais da capital mineira. 

Eu tinha lido, disse acima, o alerta de Drummond - mas como resistir ao tilintar de uns tantos mil cruzeiros, afinal escassos, e sobretudo à tentação de um brilho literário, ainda que municipal? Hoje assinaria sem pestanejar o que bem disse o Paulo Mendes Campos: “Na carreira literária, a glória está no começo; o resto da vida é aprendizado intensivo para o anonimato, para o olvido”. Eu achava, é claro, que era glória para sempre, e em nome dela não foi sacrifício atravessar interminável vigília na boca das oficinas do Estado de Minas, pitando um atrás do outro o meu Luiz XV sem filtro, para poder levar, ainda quente, o atestado de um feito que me parecia enorme. Não sei quem me premiou - a mim me bastava saber que o Ivan Angelo volta e meia vencia o concurso da Prefeitura, o Ivan daqueles contos ótimos (continuo achando) de Duas Faces, livro de estreia que nos deu também duas novelas do Silviano Santiago. Sorte minha que daquela vez o mestre não participou. 

Minhas obras-primas premiadas? Melhor mudar de assunto. 

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Falei aqui, faz umas semanas, do desastre que foi um concurso de contos por mim organizado na Playboy, desastroso porque a história vencedora, que a revista se comprometera a publicar, como de fato publicou, trombava feio com a unanimidade testosterônica do nosso leitorado, visto ser pelo menos duvidosa a macheza do protagonista. 

Disso não poderia se queixar o amigo, colega e ex-chefe Gilberto Mansur, que, no comando de outra revista de mulher pelada (nem tão pelada assim, pois a caneta da Censura estava sempre ereta), a Status, promovera memoráveis concursos de contos, dos quais saíram vencedores ninguém menos que Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, premiados, que me lembre, por Jorge Amado, Antonio Houaiss, Otto Lara Resende, Ferreira Gullar, Ricardo Ramos e o próprio Mansur. Fique este, aliás, intimado a nos revelar, por escrito e sem tardança, uns deliciosos bastidores daquelas promoções, não fosse também ele um notável contador de histórias, por enquanto em fase oral.

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Não chega a ser frequente, mas acontece de escribas graúdos se deixarem seduzir pela isca dos concursos literários, como aqueles da revista Status. Uma disputa, promovida pela editora José Olympio em 1938, ficou célebre por não haver premiado João Guimarães Rosa, abatido, na reta final, por 3 votos a 2. Graciliano Ramos jamais se arrependeu de ter votado nos contos de Maria Perigosa, de Luís Jardim, mas saiu roído de curiosidade por saber quem era, por detrás do pseudônimo Viator, o autor de um catatau - quase 500 páginas - intitulado, argh, Sezão. “Apesar dos contos muito ruins e de várias passagens de mau gosto”, avaliou Graciliano num artigo, “esse autor desconhecido é alguém de muita força e não tem o direito de esconder-se.”

Sua curiosidade só seria satisfeita em 1944, quando, apresentado por um amigo, o diplomata Guimarães Rosa lhe revelou ser ele o tal Viator. E, sem ressentimento, contou que havia depenado o catatau, capando uma fartura de páginas. O resultado Graciliano pôde ver - e aplaudir - em 1946, quando, rebatizado Sagarana, saiu o livro de estreia do escritor mineiro. Em novo artigo de jornal, incluído, como o anterior, na coletânea póstuma Linhas Tortas, o Velho Graça cravou profecia sobre o Rosa que estava por desabrochar: “Certamente ele fará um romance, romance que não lerei, pois, se for começado agora, estará pronto em 1956, quando os meus ossos começarem a esfarelar-se”. Mais certeiro, impossível: Graciliano Ramos se foi em 1953, três anos antes da chegada de Grande Sertão: Veredas


É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DESATINO DA RAPAZIADA’

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