Tony Gentile/Reuters
Tony Gentile/Reuters

Isabelle Huppert fala sobre diretores

Atriz relembra o trabalho com Mendoza e Bellocchio, e também faz elogios a Bob Wilson

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

08 de novembro de 2012 | 02h12

Brillante Mendoza não se surpreendeu com a ausência de premiação para Em Nome de Deus no Festival de Berlim, em fevereiro. "Ele sabia que seria um filme pouco palatável para o público festivalier", Isabelle Huppert diz numa entrevista de Bruxelas, onde filma com Catherine Breillat. Marco Bellocchio ficou mais aborrecido por nada haver ganhado com A Bela Que Dorme em Veneza, em setembro. Isabelle fala de seus novos filmes e autores. Elogia, acima de todos, Bob Wilson. "Malgré Godard, Chabrol e Cimino, tive com ele um dos grandes encontros artísticos e humanos de minha vida."

Você se decepcionou com a acolhida para Em Nome de Deus em Berlim?

Isabelle Huppert - Brilantê já antecipava que a acolhida seria fria. Gosto bastante do filme, menos, talvez, do que de Kinatay, mas é o mesmo autor transgressivo, visceral. Brilantê pertence a uma geração que acredita mais na mise-en-scène que no roteiro. Filma para desconstruir o roteiro. Foi um filme cuja filmagem nos deixou exaustos.

Você, como estrela internacional, não tinha direito a mais conforto?

Isabelle Huppert - Mais vous vous môquez de moi? Zomba de mim? Nunca exijo privilégios. E muito menos aqui, em que o tormento físico tem de fortalecer a fé da personagem, sob pena de fazer ruir a crença sobre a qual assenta sua vida.

São dois filmes que abordam o universo da religião, o de Mendoza e o Bellocchio. O que você pensa disso?

Isabelle Huppert - Da religião? Mas é irrelevante o que penso. O que importa é a crença das personagens, não a minha.

Mendoza filma em planos-sequência e leva os atores ao limite. Como é a preparação?

Isabelle Huppert - Brilantê não diz muita coisa para os atores. É o tipo de autor que gosta de ser surpreendido. Ela já falou antes sobre os personagens, sobre suas intenções. No set, arma o plano e faz algumas tentativas. Confia no que a gente pode trazer. Corrige - mais, menos. É um trabalho sutil, que compromete a gente.

E Marco Bellocchio, A Bela Que Dorme?

Isabelle Huppert - Ele me enviou o roteiro. Achei interessante, mas a mãe da garota em coma quase não fala. Achei que não era tão importante e não fiquei tentada. Disse-lhe isso, mas aí nos encontramos no Festival de Roma e, felizmente, ele me persuadiu.

A crítica é reducionista, quando diz que A Bela Que Dorme é sobre eutanásia. O filme é muito mais que isso. Surpreendeu-se com o resultado?

Isabelle Huppert - Mais justément, foi justamente isso. Marcô parte de situações muito precisas para fazer conceituações amplas sobre família, religião, política. O filme coloca as instituições em xeque, minha personagem cresce, como ele disse que ia ocorrer. É um grande metteur en scêne, e um grande filme.

Claudia Cardinale esteve aqui na semana passada e falou sobre outro grande da Itália...

Isabelle Huppert - ...Viscontí?

...Não, Mauro Bolognini, com quem você fez A Dama das Camélias. Que lembrança você guarda desse filme?

Isabelle Huppert - Foi bastante estranho. Eu no papel de uma grande heroína romântica. Mas Maurô queria justamente desmistificar a dama de Greta Garbô. Não creio que o filme tenha sido devidamente apreciado, mas Maurô era um esteta, e inteligente, sensível.

São definições que se podem aplicar a Bob Wilson?

Isabelle Huppert - Bob é maior que isso. O teatro nunca mais foi o mesmo depois que ele ressuscitou o sonho dos surrealistas com Deafman Glance, sua ópera sem música, de 1971. Louis Aragon ficou em êxtase e disse que havia visto o futuro do teatro. O que ele faz em São Paulo?

Esta semana, monta A Ópera dos Três Vinténs, de Brecht. E logo serão a Lulu de Wedekind e o Macbeth de Verdi, que pretendo ver...

Isabelle Huppert - Mas você precisa ver. Absolutamente. Bob é gênio. E é um ser humano formidável.

O que você faz em Bruxelas?

Isabelle Huppert - Filmo com Catherine Breillat. Há alguns anos, ela sofreu um derrame e, vulnerável, se entregou a um escroque que roubou seu dinheiro. O caso foi parar na Justiça e agora vira uma ficção da própria Catherine.

O que você tem visto, e lido, de bom?

Isabelle Huppert - Vi Looper, um filme hollywoodiano com Bruce Willis, assez remarquable. E leio L'Âme de Fond, de minha amiga Linda Lê, que foi finalista no Goncourt. Ela não ganhou, mas o livro é maravilhoso. Trata da morte de um homem, contada por ele e suas três mulheres.

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