Isabelle Huppert é a estrela de 'A Visitante Francesa'

Em sucessivas entrevistas - por telefone e ao vivo, em Cannes, no ano passado, em Berlim, este ano -, Isabelle Huppert tem comentado os motivos que a levam a aceitar os convites de autores ''estrangeiros''. Ela filmou recentemente com Brillante Mendoza nas Filipinas - e o projeto começou a nascer no encontro de ambos em São Paulo -, com Marco Bellocchio (Marcô, como o chama) na Itália e com Hong Sang-soo na Coreia do Sul. O último desses filmes se encontra atualmente em cartaz na cidade. "In Another Country" - literalmente, Em Outro País - foi rebatizado como "A Visitante Francesa". É um filme típico do cineasta, que permanece fiel a si mesmo e a um modelo de cinema autoral que a nouvelle vague francesa disseminou por volta de 1960.

AE, Agência Estado

10 de abril de 2013 | 10h09

Como atriz, Isabelle Huppert gosta de dizer que é curiosa por natureza. "Sou muito atraída por novas culturas, novos olhares. Ser atriz tem a ver com isso, com a capacidade de entrar na pele dos outros, de viver outras vidas, de se ajustar a outros olhares. Filmar com Hong Sang-soo revelou-se uma aventura de um encanto todo particular. Quando saí de Paris, não tinha muita ideia do que íamos fazer. Ele havia me sugerido alguns figurinos e sabia que faria três personagens que talvez fossem uma só. Hong filma sem roteiro, mas isso não significa, realmente, que seus filmes sejam improvisados. Ele discute muito a cena com o ator. Acerta o tom, o conceito. Na verdade, é um cinema que possui grande polimento. E ele gosta de trabalhar em equipe. Sempre no mesmo lugar, embora mude aqui o seu décor tradicional, adotando uma praia. E sempre com os mesmos atores, os mesmos técnicos. Todo mundo se conhece. Eu era a estrangeira, mas me senti muito bem acolhida."

Três histórias, três personagens em "A Visitante Francesa". Uma mãe religiosa cuja filha está em coma em "A Bela Que Dorme", de Marcô. Uma madre lésbica, que tenta seduzir a noviça na nova versão de "A Religiosa", de Diderot, por Guillaume Nicloux. O que todos esses filmes e papéis têm em comum? "Sou eu", ela brinca. "Na Visitante, apareço de corpo inteiro. Em A Religiosa, represento como numa camisa de força, com o corpo e as mãos cobertos pelo hábito. Muita gente me pergunta como é fazer uma mãe reprimida pela religião ou uma freira lésbica? O importante é não julgar as personagens, não se aproximar delas com moralismo e manter a inocência. A madre quer um beijo da noviça. Como se representa isso? Sem estranhamento, como se fosse a coisa mais natural do mundo."

Yu Jungsang é um dos atores fetiches de Hong Sang-soo. Na coletiva de "A Visitante Francesa", em Cannes, há quase um ano - maio do ano passado -, ele disse que trabalhar com Isabelle é um prazer. "Ela fica muito feliz no set, parece uma criança. E, então, quando a cena começa, ela foca no papel e vira outra coisa. Quando a cena termina, volta a ser criança. Acho que a essência de ser ator é essa - manter a inocência, sempre." O próprio Hong Sang-soo falou alguma coisa do seu método, e do uso da lente zoom. "Ela me permite filmar de uma certas distância, mantendo o foco nos atores. Tenho o controle do cenário, como um todo, e ao mesmo tempo a emoção no rosto e no gesto deles. Mas, acima de tudo, a zoom me permite esculpir o ritmo, que é sempre muito importante em qualquer cena."

Quem conhece o cinema de Hong Sang-soo sabe que ele é atraído por histórias de cinema (e cineastas). Há sempre um diretor, ou um roteirista em seus filmes. Em "A Visitante Francesa", um estudante de cinema e a mãe se refugiam nessa cidade litorânea para fugir daqueles a quem devem dinheiro. O garoto exercita-se escrevendo histórias (roteiros). Nas três histórias, a protagonista é sempre a visitante francesa. Isabelle chama-se Anne nos três contos. No primeiro, é uma cineasta francesa que visita colega coreano. No segundo, a mulher de um executivo francês que visita o amante coreano, e ele é cineasta. No terceiro, uma divorciada que se refugia na praia com amiga depois que o marido a abandonou pela secretária.

Quem são essas três mulheres? "A única instrução que Hong me deu foi muito curiosa", explica Isabelle. "Ele me pediu que representasse Anne de maneira neutra, sem procurar caracterizar a personagem em cada segmento. Ele me pediu que fosse minimalista. O restante ele faria, esculpindo o tom e o ritmo." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

A VISITANTE FRANCESA

Título original: In Another Country. Direção: Sang-soo Hong. Gênero: Drama (Coreia do Sul/2012, 90 min). Classificação: 12 anos.

Tudo o que sabemos sobre:
cinemaA Visitante Francesa

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.