Isabelle Adjani enfrenta estudantes

Ela está em O Dia da Saia, que faz da escola espelho da realidade francesa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

Havia cinco anos que Isabelle Adjani não filmava. Sua última participação havia sido em M. Ibrahim et les Fleurs du Coran, filme de circulação restrita. Daí a grande expectativa por La Journée de La Joupe, de Jean-Paul Lilienfeld, ao ser exibido no Festival de Berlim de 2009. Foi um choque. A violência do filme (Isabelle faz professora que pega em armas contra os alunos) causou menos impacto do que constatar que a atriz estava fora de forma, gorda, como Elizabeth Taylor quando fez Quem Medo de Virginia Woolf?.

A associação talvez não seja despropositada. Isabelle acabou ganhando prêmios importantes por O Dia da Saia: o Lumière, atribuído pela crítica estrangeira em Paris, em janeiro, e o César, o Oscar francês, em março. Apesar dos elogios e da polêmica provocada na França, O Dia da Saia não passou nos cinemas brasileiros, mas chega à TV: é a atração de hoje, às 22 h, do Eurochannel. De Paris, o diretor conversou pelo telefone com a reportagem do Estado.

Seu filme dividiu a crítica na Berlinale de 2009. Já esperava?

Não foi surpresa. Quando a produção começou a ser noticiada na França, em parte pelo interesse que Isabelle desperta na mídia, houve uma polarização. A esquerda dizia que eu estava fazendo filme de direita e vice-versa. Ao estrear, me surpreendi: no mesmo dia, Liberation e Le Figaro, jornais que representam esquerda e direita na França, publicaram críticas positivas. Depois me acostumei a ver pessoas de todas as tendências elogiarem o filme, destacando o significado estético tanto quanto político.

No Brasil, filmes de cunho social como Entre os Muros da Escola e Bem-Vindo tiveram grande êxito. Eles têm a ver com o seu?

Laurent (Cantet) e Philippe (Lioret) se inscrevem no mesmo movimento que eu; queremos dar testemunho das condições sociais da França hoje. O Dia da Saia não saiu de nenhuma crônica policial, mas de minhas observações sobre a escola pública francesa. Tenho uma filha e gostaria que ela tivesse estudado na escolas pública, como eu, em Grenoble, mas as condições, não apenas do ensino, se deterioraram muito. A escola é hoje o espelho da realidade social da França. Mostro essa realidade, assim como Laurent em Entre os Muros da Escola e Philippe em Bem-Vindo, do qual gosto mais.

Seus alunos, como os de Cantet, expressam a diversidade de etnias que compõem o atual espectro social da França. Você os escolheu em função disso?

Sim, mas não era só a questão social que me atraía, assim como não foi para Laurent (Cantet). O grupo me interessava também pela questão da linguagem oral. O francês de Molière tem mudado muito em função da língua viva das ruas. Cada vez mais as etnias incorporam palavras novas ao vocabulário francês. Isso está no filme de Laurent, no de Abdellatif Kechiche (O Segredo do Grão), no meu. Gostaria de ter tido mais tempo para preparar minha "turma", mas O Dia da Saia foi feito com recursos mínimos. Tive quatro semanas de preparação, filmei em 21 dias e montei o filme em quatro meses, tudo as toque de caixa, não por questão de método. Não tinha dinheiro.

Nem com Isabelle Adjani?

Isabelle foi corajosa e generosa aceitando fazer o filme por menos do que poderia cobrar. Sem ela, o filme com certeza não teria sido feito, mas nem sua presença nos deu mais conforto na hora de buscar recursos.

É surpreendente que você tenha conseguido Adjani, e neste papel. Como isso ocorreu?

Da maneira mais simples. Consegui seu telefone, liguei dizendo que tinha um papel especial, ela pediu que enviasse o roteiro, depois conversamos. Isabelle não vacilou, não pensou nas consequências desse papel para a imagem de estrela sexy que projetou em grandes filmes, como A Rainha Margot, que lhe deu o terceiro César. E não impôs condições e quando eu lhe pedia que fizesse alguma coisa sobre a qual tinha dúvida, conversávamos e, depois, ela nunca deixou de fazer. O mais impressionante é que ela sempre fazia melhor do que eu havia imaginado.

Como reagiu ao quarto César?

Com a tranquilidade de quem sabe que fez um grande trabalho e o prêmio foi merecido. Fiquei feliz que ela tenha ganhado. Teria ficado mais se Vincent Lindon tivesse ganhado por Bem-Vindo. Para mim, era indiscutível o melhor ator.

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