Isabel Fonseca investiga a vida dos ciganos

A escritora Isabel Fonseca decidiu largar o emprego em 1991, para se dedicar a um projeto: descobrir a origem e o caminho dos ciganos pelo mundo. O resultado surgiu quatro anos depois, no livro Enterrem-me em Pé, lançado aqui pela Companhia das Letras. Agora, desde janeiro, ela vive em Jose Ignacio, pequena cidade próxima a Punta del Este, no Uruguai. É casada com o prestigiado escritor inglês Martin Amis. Embora nascida nos Estados Unidos, Isabel tem ascendência uruguaia. Ela participa hoje, às 18 horas, da palestra Vozes Femininas, ao lado da brasileira Adriana Lisboa e da espanhola Rosa Montero, durante a 2.ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Para escrever sobre os ciganos precisou executar viagens curtas e longas à Europa Centro-Oriental em países como Albânia, Bulgária, a antiga Checoslováquia, Alemanha, Moldávia, Polônia, Romênia e a antiga Iugoslávia. O motivo é a alta concentração de ciganos nessa região. "Existem hoje no mundo cerca de 14 milhões de ciganos, dos quais 8 milhões no território europeu." Com praticamente nenhuma documentação em que se apoiar, Isabel aos poucos percebeu por que os ciganos são tratados, quando não ´marginalizados´, como um povo ´invisível´. "Eles estão em nosso meio, mesmo que a gente finja não vê-los, apesar das roupas coloridas das mulheres querendo ler a sorte na palma das mãos." Segundo ela, a primeira menção histórica da existência de ciganos encontra-se em um pequeno documento do século 10. Desde então, uma série de preconceitos foram se alojando à trajetória do povo sem país. Nas viagens que fez, Isabel conviveu com a miséria dos ciganos. Partindo da tese de que os ciganos seriam os ´novos judeus´ da ´nova Europa´, a escritora aponta uma distinção fundamental: enquanto os judeus montaram uma grande ´indústria da memória´ das perseguições que sofreram, especialmente durante a 2.ª Guerra Mundial, os ciganos têm como base de sua cultura a ´arte de esquecer´. "Se os judeus sofreram uma perseguição mais intensa durante a guerra, os ciganos passam pelo problema ao longo de sua história e sempre com a mesma intensidade." Apesar de ignorados, os ciganos professam uma rica cultura, baseada em tradições e ritos. Tradicionalmente, os ciganos sempre viajaram em carroças, formando comboios e, para manter contato com membros do clã que faziam rotas diferentes, deixavam sinais nas encruzilhadas - maço de gravetos amarrados com um pano vermelho, um galho quebrado de determinada maneira, um osso com um entalhe. "Hoje, eles utilizam recursos mais atualizados como a internet", conta Isabel. Além da mesa Vozes Femininas, a programação da Flip terá hoje a presença da canadense Margaret Atwood que vai falar da ficção especulativa; do irlandês Colm Tóibín, que vai tratar de seu conterrâneo James Joyce; do francês Pierre Michon que, ao lado do brasileiro Raimundo Carrero, vai contar como sua narrativa é inovadora; e dos brasileiros Luiz Vilela e Sérgio Sant´Anna, que vão falar sobre breves (e exemplares) histórias.

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