Isabel Allende quebra tradição

Autora conta que não vai mais iniciar suas obras sempre no dia 8 de janeiro

Ubiratan Brasil ENVIADO ESPECIAL PARATY, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2010 | 00h00

Em Paraty. "Estou pronta para novos caminhos literários"      

 

 

 

 

 

A escritora chilena Isabel Allende tomou uma decisão radical: não vai mais iniciar a escrita de seus livros seguindo uma tradição pessoal - todos começaram a tomar forma no dia 8 de janeiro, data em que, em 1981, ela iniciou uma carta para o avô que estava morrendo e que se transformou no seu grande sucesso, A Casa dos Espíritos (Bertrand Brasil). "Quero sentir o gosto da liberdade, deixar que a inspiração apareça em qualquer momento", disse ela ao Estado, ontem de manhã, antes de iniciar um passeio pelo irregular calçamento de Paraty. "Há dois anos venho sentindo essa inquietude, esse desejo de ter menos responsabilidade e de aproveitar melhor a vida. Estou envelhecendo, é chegada a hora. Cansei dessa escravidão literária."

Aos 68 anos, completados na segunda-feira, e dona de marcas espantosas na venda de livros (já beira um milhão só no Brasil), Isabel não teme a força de um possível desvio em sua carreira. "Tudo o que eu queria realmente dizer está em meus 18 livros. O que vier agora é extra e já adianto que será algo diferente - não sei ainda o que, mas estou pronta para novos caminhos." De fato, um grande derramamento de mágoa, raiva, tristeza e dúvida tinha de acontecer antes que a segurança e o bom humor da escritora madura pudessem passar a existir. Sobrinha do presidente Salvador Allende, morto em um golpe militar em 1973, Isabel precisou se exilar e, depois de uma temporada na Venezuela, estabeleceu-se nos Estados Unidos, onde ainda se sente uma mulher sem chão próprio. "Quando estou no Chile, logo descubro que não pertenço mais àquele país e o mesmo acontece onde vivo hoje, pois o inglês não é a minha língua."

Esse dualismo, ela vence por meio da escrita. "Meus livros são pensados em espanhol e vertidos para o inglês sempre pela mesma tradutora, uma senhora de quase 90 anos", conta Isabel, que enfrentou um curioso entrave no próximo romance, ainda sem data de publicação: a personagem principal é uma americana. "Mesmo assim, tive de escrever em minha língua para que ela existisse."

O conforto espiritual de Isabel Allende se expande além de seu sorriso constante. Na cidade colonial onde está desde terça-feira, vinda de avião, e onde também terá hoje, às 17h15, uma das mais esperadas mesas da 8.ª Festa Literária Internacional de Paraty, ela ainda desfruta de um certo anonimato, circulando com tranquilidade com o marido, o também escritor William Gordon, com quem vive em São Francisco. Anteontem, passeou de barco pelas ilhas da redondeza. "Almocei em um restaurante rústico, cujo proprietário parece viver como Robson Crusoe."

A realidade interessa a Isabel Allende, a despeito de sua fama de escritora fantástica. Ela faz, por exemplo, interessante distinção entre fantasia e realismo mágico. "A primeira inspira histórias como a de Harry Potter, que pode se tornar invisível bastando se esconder sob um manto mágico", diz. "A segunda inspira cenas à la García Márquez, em que um pescador puxa em sua rede peixes, palhaços, elefantes - foi o navio de um circo que afundou."

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