Tasso Marcelo/ Estadão
Tasso Marcelo/ Estadão

Isabel Allende faz sua estreia no romance policial

Com ‘O Jogo de Ripper’, baseado em um RPG, ela provocou críticas de alguns fãs ao dizer que zombava do gênero

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

22 de abril de 2014 | 21h00

Sempre disposta a enfrentar desafios, a escritora peruana Isabel Allende ficou animada quando foi convidada a escrever um romance policial, fato inédito em sua carreira. O resultado é O Jogo de Ripper, lançado agora pela Bertrand Brasil, em que uma jovem chamada Amanda, filha do inspetor-chefe da divisão de homicídios de São Francisco e fã do RPG online de mistério chamado Ripper, decide averiguar, ao lado dos companheiros do jogo, os misteriosos crimes investigados pelo pai.

A trama agradou seus leitores habituais, mas Isabel provocou os fãs dos policiais ao afirmar, em janeiro, que pretendia zombar do gênero com seu livro. "Novelas policiais e romances são fantasias, e seus personagens tendem a ser caricaturas. Para uma autora como eu, que mergulha tanto no personagem, relacionamentos e pesquisa, precisei escrever este livro no meu estilo e debochar do gênero", disse a escritora, que falou ao Estado por e-mail.

O que a levou a escrever um romance policial, mesmo não sendo fã do gênero?

Não foi ideia minha, mas da minha agente, Carmen Balcells, a quem ocorreu que eu poderia escrever um romance policial a quatro mãos com meu marido, William C. Gordon, que é autor de vários. Tentamos, mas não deu certo, porque ele escreve em inglês e eu em espanhol; eu trabalho dez horas por dia e ele tem uma capacidade de atenção de 11 minutos. Brigamos como cão e gato; no fim, ele foi para o seu escritório para escrever seu sexto romance e eu para o meu para tentar meu primeiro livro sobre crimes. Reconheço que me diverti muito!

Que autores leu para se preparar para a façanha?

Evidentemente, havia lido os eternos clássicos: Agatha Christie, Conan Doyle, etc., além de Pérez Reverte e de autores americanos muito conhecidos. Também li os escandinavos, Stieg Larson e Jo Nesbo, que estavam na moda naquele momento, e vi inúmeros filmes policiais. Mas minha verdadeira preparação se deu numa conferência para escritores de romances "noir", aqui, na baía de San Francisco, onde moro.

Acredita que o mal é um aliado da literatura?

Tudo pode ser um aliado da literatura: o mal, o bem, o amor, a morte, a dor, os sete pecados capitais... A matéria-prima do romance é infinita.

Existe uma relação profunda entre a literatura de suspense e a psicanálise, pois em ambas há sempre uma verdade encoberta a ser revelada?

Não pensei nisso, mas indubitavelmente é preciso investigar profundamente na psicologia dos personagens para criar uma situação plausível. Os leitores de romances "noir" são muito sagazes e espertos, não deixam passar erros ou inconsistências. Minha responsabilidade como autora é fazer com que os personagens sejam reais ao máximo.

Leonardo Sciascia usava o suspense como meio para falar de temas de identidade.

Num bom romance policial moderno, pode-se expor todo tipo de temas sociais, políticos, filosóficos, etc. O autor prende a atenção do leitor por meio da intriga e do suspense, e isto lhe permite falar do que quer, mas ele precisa tomar cuidado, não deve transmitir uma mensagem ou pregar opiniões pessoais, porque os leitores avisados logo se darão conta.

Muitos autores acreditam que o romance hoje deve muito ao gênero policial, que sempre manteve a necessidade de usar categorias muito claras: personagens, investigação, busca, conclusão. Concorda?

Acredito que todos os gêneros literários se relacionem de alguma maneira, todos pedem emprestado alguma coisa de outros. Em quase todos os romances e outras formas de ficção, os personagens são muito importantes. A essência de toda história é que algo muda, mesmo que se trate de uma mudança muito sutil; se não houver mudança para o personagem, não haverá história. Mas nem sempre o romance se coloca em termos de investigação, busca e conclusão, como no gênero policial.

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