Irrespeitável público

É muita maldade comparar o Horário Eleitoral Gratuito a um circo. No circo, as pessoas precisam treinar muito e não podem errar, porque o público inteiro verá o erro. Na política, preparo é o de menos, e todos parecem dispostos a errar, desde que não sejam pegos em flagrante. Os tipos esquisitos do circo - a mulher barbada, o engolidor de fogo, etc - se assumem como tais, não fingem estar representando a média dos cidadãos. E, se a comparação for com os animais, pior ainda: eles são adestrados, não costumam fugir ao controle humano. A única coisa que a propaganda política na TV tem em comum com o circo é que ela provoca dois tipos de emoção: o medo e a risada. Com outra diferença, a de que no picadeiro as emoções começam e terminam ali; depois das eleições, vamos aguentar boa parte da fauna por quatro anos ao menos.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

Ser candidato parece ter virado uma segunda carreira para os que um dia foram famosos ou para os eternos subfamosos. Jogadores de futebol aposentados, como Marcelinho Carioca, que já tentou ser comentarista, empresário e apresentador de TV, são cada vez mais comuns. Cantores que um dia, décadas atrás, emplacaram algum sucesso, como Agnaldo Timóteo (aquele que diz que vai "continuar a obra de Clodovil"; eu não sabia que ele costurava) e Frank Aguiar, idem. Essas mulheres bombadas por esteroide e silicone, com nomes de frutas, também pedem nosso voto. Outra marca brasileira é a candidatura em família: é um tal de irmão apresentando irmão, pai vendendo filho - e felizmente nem dá tempo para o candidato mesmo falar.

E aqueles cuja carreira é ser candidato? Ey-ey-Eymael e o tal Levy Fidélix, do aerotrem, jamais ganharam nada, provavelmente porque ganham ao ganhar nada. Se um dia vencerem, é bem capaz de que desistam, clamando por clemência: "Não, por favor, não, eu tenho de sair para prefeito daqui a dois anos!" Incomensuravelmente pior é ver os que já foram governantes, cometeram um sem-número de desastres e desatinos e são de novo candidatos. Fernando Collor, Jader Barbalho, Roseana Sarney - pense em um nome e ele estará lá, até mesmo Paulo Maluf, que além disso aparece o tempo todo como âncora de seu partido "progressista". Não espanta que Antonio Palocci coordene campanha e que Aloisio Mercadante não mencione o episódio do "irrevogável": o PT está mais maduro, ou seja, aprendeu a revogar cada um de seus princípios.

Acompanhar e pagar por esse mosaico de bizarrices não tem paralelo. Nem aquele professor do Código Da Vinci seria capaz de decifrar todas as siglas que aparecem. Sobre algumas, não sabemos nada além do significado da letra P, de Partido; o que quer dizer na íntegra PMN, PPR ou sei lá o que mais, posso até tentar adivinhar, mas, como dizia Bismarck, é melhor não saber como as salsichas e as leis são feitas. O sistema partidário brasileiro é tão peculiar que, além de um monte de partidos nanicos, o maior dos partidos não tem nem candidato a presidente da República nem a governador do Estado mais rico. Ver Michel Temer como vice do PT e Orestes Quércia aliado de Alckmin é muito mais que confirmar a divisão interna do PMDB; é confirmar a infinitude de seu fisiologismo. O maior partido do Brasil é, em suma, um partidão de aluguel.

Quem assiste a 50 minutos de propaganda política por dia tem o equivalente a uma formação na Sciences Po, a academia de Ciências Políticas (sic) de Paris. Acho até que esse tempo deveria valer como crédito para os estudantes dessa disciplina e de outras correlatas nas universidades brasileiras. Eles podem aprender muito mais assim do que com a superexposição de certos ex-presidentes brasileiros, sempre dando palestras em eventos literários e aparecendo em matérias de revistas literárias, tudo bancado por grandes bancos. Aliás, por que FHC não aparece no horário gratuito defendendo Serra, Alckmin e outros correligionários? Bem, Serra também não aparece na propaganda de Alckmin e vice-versa. Depois reclamam que o PSDB não seja tido como um partido, mas um agrupamento de caciques - ainda que tentem ser chamados pelo primeiro nome (Geraldo, Zé), mais uma típica "sacada" besta de marqueteiro.

Lula, por sua vez, aparece tanto nas inserções petistas que parece ter cumprido a profecia apocalíptica dos conservadores, que morriam de medo de que ele tentasse o terceiro mandato... Dilma parece - já que estamos falando de malabaristas, equilibristas e ilusionistas amadores - um daqueles bonecos de ventríloquo no colo do presidente. Mesmo que os movimentos sejam desengonçados e atrasados, o público permanece admirado com o modo como ele conduz tudo como se fosse a coisa mais natural do mundo. Pelo menos metade da sua popularidade ele já transferiu para ela, e a tendência é que continue transferindo; mesmo nunca tendo recebido um voto em vida, ela é a primeira ministra do governo há quase quatro anos, isto é, já começou a campanha desde aquela sua visita às obras do Pan em fevereiro de 2007. Quanto ao Otário Eleitoral Gratuito, digo, o Horário, ele só serve para desempatar campanhas com chances iguais ou para divulgar os nomes dos candidatos aos diversos cargos em disputa.

Se você acredita que a reforma política será feita por qualquer um deles, justamente os beneficiários dessa bagunça, tente uma vaga no Orlando Orfei.

Rodapé. Os livros da Penguin foram a melhor das universidades para muitos leitores, como eu. Lembro que nos anos 80 ia à Livraria Cultura no Conjunto Nacional, quando ela tinha apenas uma unidade pequena, ou à extinta Belas Artes, na Paulista, e comprava com os caraminguás da mesada os grandes romances ingleses e americanos. Mesmo com o famigerado "dólar-livro", uma invenção dos livreiros da época para driblar a inflação e preservar o lucro, eu podia ter contato com a prosa genial de Defoe, Swift, Conrad, Twain e tantos outros pelo preço de um sanduíche com Coca-Cola. É bacana ver essa coleção agora em português, pela Companhia das Letras, mas, sinceramente, mais bacana era ler no original (sempre é melhor ler no original, quando se pode).

Já a versão da linha "Portable" é muito apropriada. É a reunião dos principais textos de um escritor - sem preconceito de gênero, porque podem misturar ficção, ensaio e correspondência - num volume único, de capa mole e corpo sólido, que se pode carregar e folhear confortavelmente. E nada melhor que o primeiro dessa linha, batizada de "Essencial", seja com os textos de Joaquim Nabuco selecionados e prefaciados pelo grande historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello. Os três principais livros de Nabuco, Abolicionismo, Um Estadista do Império e Minha Formação, estão representados ali, e a leitura do conjunto portátil poderia resgatar a admiração por sua prosa, que naturalmente tem ficado em segundo plano em relação à sua contribuição como figura histórica.

De la musique. Não merecemos: a Reprise acaba de relançar Francis Albert Sinatra Antonio Carlos Jobim com todas as gravações que eles fizeram e não estavam no disco original de 1979. Alguns na época se queixaram das versões, que realmente soam esquisitas em algumas passagens, mas ouvir "The Voice" cantando Dindi, How Insensitive e Wave, pontuadas por alguns standards americanos como Change Partners e I Concentrate on You - e sem perder na comparação -, não é nada senão um prazer. Com exceção parcial de Chico Buarque, que tem sido gravado por cantoras como Stacey Kent e instrumentistas como Brad Mehldau, qual outro compositor brasileiro vivo pode se gabar de tamanho prestígio internacional? Nenhum. E ainda há quem tenha certeza de que a MPB não vive uma fase de declínio...

Cadernos do cinema (1). Uma noite, na África do Sul, liguei a TV e vi que estava passando um filme com Kurt Russell, em que ele era seduzido por garotas gostosas e depois as atropelava com detalhes sangrentos em câmera lenta. Pensei: que filme "trash" legal! Só depois é que soube que o diretor era Quentin Tarantino e o nome do filme, À Prova de Morte, feito em 2007 e só agora em cartaz no Brasil. Mais chato que esse atraso, porém, é ler as resenhas que citam até nomes e livros do chamado mundo "erudito" para exaltar um filme que não é nada mais do que quer ser: um filme "trash" legal, um telefilme que se assiste numa noite em que não se tem vontade de fazer mais nada. Os fãs de Tarantino prestam mau serviço levando-o mais a sério do que ele mesmo se leva.

Cadernos do cinema (2). Outro mau serviço prestado pela crítica de cinema diz respeito ao cinema brasileiro. Depois da tal "retomada", a partir de Carlota Joaquina, 1994, houve um compreensivo entusiasmo com a produção de novos longas por diretores talentosos como Luiz Fernando Carvalho, Walter Salles e Fernando Meirelles, para citar os que fizeram os melhores filmes. Mas, pelo que tenho visto e lido, o momento é bem inferior ao que se imaginava, em termos qualitativos e até quantitativos.

As leis de incentivo ajudam, mas não bastam. O Brasil ainda produz poucos filmes por ano e raros filmes bons. Vejo elogios exagerados a trabalhos apenas esforçados como É Proibido Fumar e As Melhores Coisas do Mundo, como se ninguém do meio quisesse reconhecer a má fase. Desde Tropa de Elite não se faz nada que atraia ao mesmo tempo a atenção do público e o debate da crítica. Com menos dinheiro, vizinhos como Argentina, Uruguai e até o Chile têm feito mais coisas consistentes.

Por que não me ufano. Os dois juízes que gozarão de R$ 25 mil mensais em aposentadoria precoce, por terem sido pegos em esquemas ilícitos, se tornaram o maior símbolo recente da impunidade nacional. Se você ainda duvida que haja frustração geral com a classe dirigente, é porque não sai às ruas ou fecha os ouvidos.

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