Fabio Motta/AE
Fabio Motta/AE

Ironia para tratar do fim de uma época

Momento de transformação sofrido pela escrita é o tema de 'Dublinesca'

Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo,

17 de maio de 2011 | 06h00

Defensor ferrenho da literatura, mote para sua obra hoje vital nas letras mundiais, o escritor catalão Enrique Vila-Matas anuncia o fim de uma época em Dublinesca (Cosac Naify), obra que o trouxe a São Paulo para dois eventos: hoje, como participante do do 3.º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, no Sesc Vila Mariana, e amanhã, às 20 horas, no Instituto Cervantes, onde conversa com Paulo Roberto Pires. Sobre o livro, que trata de um velho editor prestes a abandonar a profissão e, por isso, celebra o fim de uma época da literatura, Vila-Matas conversou com o Estado.

Por que preferiu que, dessa vez, seu personagem fosse um editor?

Inicialmente, Samuel Riba seria um escritor, mas, depois de escritas 50 páginas, me dei conta de que se parecia muito comigo e, se fosse um editor, a situação seria outra, todos os diálogos teriam de ser diferentes. Então, decidi trocar e me diverti muito refazendo a trama. Sobrou apenas a mesma paixão que eu e o editor dedicamos à literatura.

Mas o narrador tem uma posição ambígua, participando algumas vezes da trama.

Ele intervém em apenas dois momentos da narrativa - de resto, atua como uma terceira pessoa. Há uma cena crucial em Ulisses, de Joyce, quando Bloom está no cemitério e, ao avistar um personagem fantasmagórico, acredita ver o próprio autor do livro. Ou seja, Bloom enxerga Joyce. Também em Dublinesca, é possível acreditar que o personagem central veja o narrador, que não é propriamente o narrador. Aliás, o grande mistério desse livro é saber quem é esse narrador.

É curioso porque Dublinesca é um romance otimista ao reverenciar justamente o romancista.

Concordo, pois celebra, de fato, o autor, que renasce das cinzas. E também acredito ser otimista pois a ironia domina a narrativa - a comédia compensa o peso dessa tragédia que é o final de uma vida, da literatura. Na França, aliás, os críticos observaram que o livro era uma paródia. Especialmente a cena do funeral que é tipicamente irlandesa, ou seja, cômica, enlouquecida. No início, pensei em fazer uma descrição mais fúnebre, mas logo percebi que tinha de ser insana. E, dessa forma, é mantida uma ligação de Dublinesca com Ulisses.

Esse funeral, aliás, serve como uma reflexão sobre a cultura?

Sim, especificamente sobre a desaparição de um tipo de editor de livros que está em vias de extinção. E também de uma forma de se imprimir livros, cuja fase áurea publicou Joyce, seguido de Beckett.

Como surgiu essa paixão pela literatura irlandesa?

Já é antiga, mas se intensificou há dois anos, quando comecei a ir mais vezes a Dublin. Descobri autores considerados secundários mas de igual riqueza como Flann O’Brien. É impressionante como um país tão pequeno produz uma literatura tão potente. Em Dublin, descobri também algo raro no mundo e que pareceria uma criação literária minha, mas que é real: um museu de escritores, que reúne objetos pessoais de autores irlandeses. Há, por exemplo, um telefone vermelho que teria pertencido a Beckett quando viveu em Paris. Não sei se a história é verdadeira, mas, seja o que for, é uma boa piada irlandesa.

E o que dizer dos cinco elementos formulados por Riba para o romance do futuro?

São conceitos de uma teoria que inventei quando fui certa vez a Lyon para um encontro literário e ninguém me recepcionou. Fiquei o tempo todo trancado em meu quarto e escrevi essa teoria. Como ninguém me procurou, voltei a Barcelona, sem ter falado como ninguém. Foi tudo muito estranho. Mas aquela teoria serviu para um romance - depois, eu a rasguei pois só servia para aquele livro. Para o seguinte, crio outra que também dispenso. Cada nova obra demanda uma teoria própria.

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