Ironia e mito na obra de Thomas Mann

Do Suplemento Literário[br][br]Romancista alemão, que morreu há 55 anos, teve seu último trabalho, Confissões de Felix Krull, analisado no conjunto de sua produção

Anatol Rosenfeld, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2010 | 00h00

22.3.1958

A primeira parte das "Confissões de Felix Krull" - romance de aventuras "na época da burguesia moribunda" - saiu em 1923, depois de uma gestação de varios lustros. Em 1954, pouco antes da morte de Thomas Mann, a obra foi lançada na sua forma definitiva, muito ampliada, mas ainda assim fragmentaria. Tão longa preocupação com o tema do impostor indica a sua importancia para o autor. Infelizmente falta o segundo volume planejado, do qual não parece existir nenhum bosquejo. É, pois, impossivel interpretar o ultimo romance do escritor. Pode-se apenas situá-lo dentro da obra total, ficando subentendidas as implicações de satira social.

Um dos temas fundamentais dos romances de Mann é o artista, concebido como ator, isto é, como ser que representa o que ele não é e que, neste desempenho constante de papeis, é ameaçado de perder a sua identidade. Tal concepção do artista como ser ambiguo, dedicado às "aparencias", já se encontra em Platão: Hegel reformulou-a num capitulo polemico contra a ironia romantica; e Nietzsche, tendo por modelo Richard Wagner, elaborou toda uma psicologia do artista-ator, do cabotino, histrião e charlatão: temas aqui a raiz do "cavaleiro de industria" Felix Krull, do trapaceiro astuto e encantador, do homem que vive simulando e dissimulando e para quem toda a existencia se reduz à atuação mimetica no palco do mundo. Certa vez, Thomas Mann definiu toda sua obra como "psicologia das formas de existencia irreais e ilusorias".

Disfarce e fingimento é também a raiz da ironia (este é o sentido da palavra grega), embora ela usa a mascara para tanto melhor desmascarar.

Em essencia, a atitude ironica, tão cara a Thomas Mann, se manifesta como recurso de comunicação obliqua. Os estados, emoções e idéias a serem expressos não o são, ponto por ponto, num paralelismo completo, pelas palavras adequadas, mas por um jogo de frases que se distanciam, em maior ou menor grau, do sentido a ser expresso. Em vez de dizer: "Você é impontual", diz-se: "Você não é precisamente pontual" ou mesmo: "Mas como você é pontual!" Mas essa capacidade de distanciamento em face do imediatamente vivido, pensado e experimentado presidira a propria origem da lingua humana. É graças a essa capacidade que os sons emitidos se transformam de mero sinal em simbolo. O grito - sinal e expressão direta da dor - converte-se em palavra no momento em que, cindida a unidade compacta, podemos emiti-lo sem sentir a dor. (...)

FUGA DO NAZISMO

Thomas Mann nasceu em Lübeck, Alemanha, no dia 6 de junho de 1875 e morreu em Zurique, Suíça, a 12 de agosto de 1955. Filho de um alemão com uma brasileira, ganhou o Nobel em 1929. Quatro anos mais tarde deixaria a Alemanha, rumo ao exílio, fugindo do nazismo. Também alemão, o crítico Anatol Rosenfeld deixou seu país pelo mesmo motivo em 1937, radicando-se no Brasil. Aqui, conquistou notoriedade a partir de 1956, quando assumiu a seção de "Letras Germânicas" do SL.

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