Irmgard Longman expõe alma expressionista

Felizmente alguns artistas atravessam a vida sem se prender aos ditames da crítica e do mercado, buscando - por necessidade ou fraqueza - adequar-se ao coro dominante. É o caso de Irmgard Longman, que ao longo de 40 anos produziu com calma e liberdade a bela obra que o Museu Lasar Segall apresenta a partir de sábado, na primeira de uma série de exposições temporárias dedicadas a revelar ao público as várias matizes da arte expressionista no Brasil.Alemã de nascimento, Irmgard chegou ao Brasil em 1926, com apenas 7 anos. Dedicou-se às ciências sociais, ao estudo de idiomas, trabalhou por 15 anos no Instituto Biológico, foi tradutora... Descobriu tardiamente a pintura, talvez porque se lembrava dos pais que diziam desde que ela era menina que não tinha jeito para a coisa. Chegou a estudar um pouco com Nelson Nóbrega, mas só passou a se dedicar à arte alguns anos mais tarde, sob a orientação de Yolanda Mohalyi e Henrique Boese, após retornar de uma estadia na Alemanha com o marido psiquiatra.É a partir daí que começa a exposição, concebida pela curadora Vera d´Horta como um passeio conciso pela diversidade criativa de Irmgard. Das primeiras telas, da década de 50 à fascinante sala de guaches quase abstratos - que têm um espírito lírico que nos faz lembrar Vieira da Silva - com que encerra a exposição, perpassamos por uma série de paisagens - externas ou íntimas, reais ou imaginárias - que remetem ao amplo universo de interesses da artista.Convivem no mesmo espaço o díptico (inicialmente um tríptico) Interiores I e II , que retratam em tons fortes e imagens distorcidas a libertação da mulher do núcleo doméstico e a conseqüente confusão que isso acarreta, e a bela tela Pax, Pax um retrato dos movimentos sociais em tons sombrios, sobre os quais se destacam a pureza das bandeiras brancas. Ou ainda a impressionante tela Tempos Sombrios, um retrato de uma alma torturada que nos faz lembrar o melhor do expressionismo alemão ou a intensidade de Bacon ou Münch. "O que é bonito no trabalho dela é essa incerteza, essa dubiedade", afirma Vera d´Horta."Não posso e não quero me definir", afirma. Quanto à abstração, explica que sua atitude não era essa. "Estava ligada à representação de uma cidade imaginária, melhor", explica ela lembrando que é de um tempo em que tudo eram casas, jardins. "Para mim, o crescimento da cidade e dos prédios, sempre cinzas, teve um grande impacto", acrescenta. "Penso que pinto assim como nos sonhos, em que você tem diferentes aglutinações de vivências", explica. Como resume Olívio Tavares de Araújo, "ela não registra o mundo exterior. Registra-se a si mesma, a seu diálogo com ele, às emoções e reações que o mundo lhe inspira". A Pintura de Irmgard Longman: Alma Expressionista em Corpo Abstrato. De terça a sábado, das 14 às 19 horas; domingo, das 14 às 18 horas. Museu Lasar Segall. Rua Berta, 111, tel. 5574-7322. Até 12/8. Abertura sábado, às 14 horas.

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