Irmãos Grimm, com açúcar e tristeza

Edição comemorativa, Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos (1812-1815) reúne 156 contos em dois volumes

ARYANE CARARO, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2012 | 02h12

Branca de Neve não sofre com a Madrasta Má. É sua própria mãe que tenta matá-la três vezes. Rapunzel, grávida, é abandonada no deserto e demora anos para encontrar seu príncipe, que fica cego ao escalar a torre pela última vez. Cinderela não tem fada madrinha, perde um sapato dourado e verá suas irmãs cortarem partes dos próprios pés para tentar enganar o príncipe.

Ditos assim, parecem até contos de terror. Mas eles não são adaptações recentes, destas que o cinema tem produzido para os adultos. Essas são as versões originalmente escritas pelos Irmãos Grimm há 200 anos e que a Cosac Naify traz, pela primeira vez ao Brasil, em Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos (672 págs., R$ 99), com a crueldade, dureza e ironia dos mestres alemães.

A edição comemorativa tem 156 contos em dois volumes, um lançado em dezembro de 1812 e o outro, três anos depois. O segundo tomo mantém, inclusive, o prefácio original dos irmãos com a repercussão do volume anterior. O texto antigo, que não perdeu o vigor, recebeu um cuidadoso tratamento gráfico, com páginas fluorescentes e xilogravuras do cordelista pernambucano J. Borges. Uma escolha que está alinhada com a obra dos Grimm, que coletaram 240 contos populares alemães ao longo de sua produção. Na última das 17 edições publicadas em vida, de 1857, os irmãos deixaram como legado 211 histórias - as rejeitadas acabaram resgatadas por historiadores.

Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) eram os irmãos mais velhos de uma família de seis. Nasceram em Hanau (Hesse) e estudaram em Kassel. Quando decidiram percorrer os principados e ducados que em 1871 formariam o país da Alemanha, voltaram para sua região natal, ouvindo moradores das proximidades dos rios Meno e Reno. "Os Grimm tiveram a preocupação de manter a oralidade, até com repetições de frases e trechos. Isso foi importante para conservar o registro do contar", diz Isabel Coelho, diretora do núcleo infantojuvenil da Cosac Naify.

Alguns contos já haviam sido publicados pelo francês Charles Perrault em 1697, como Cinderela e Chapeuzinho Vermelho. No entanto, a versão dos Grimms tem diferenças consideráveis. A "coincidência" se explica, em parte, pela ajuda prestada por Dorothea Pierson Viemann (1755-1815), descendente de huguenotes que haviam emigrado da França para a Alemanha, e uma das fontes mais importantes dos alemães na coleta, segundo Marcus Mazzari, professor do departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, que assina o prefácio do livro. "Os Grimm também recolheram contos em fontes escritas, como O Pé de Zimbro e O Pescador e Sua Mulher, anotados em dialeto pelo pintor romântico Philipp Runge", diz ele.

Na época da coleta, o território germânico era dominado pelos franceses. A situação, claro, não agradava aos alemães. Por isso, o trabalho dos Grimms de recolhimento de histórias e palavras - que viria a constituir o grande dicionário da língua alemã com 32 volumes - fazia parte de um plano maior. "Uma motivação fundamental para a coletânea dos Grimm foi contribuir para a consolidação da identidade cultural dos alemães e, mais além, para a unificação política", atesta Mazzari. O ano de publicação da primeira coletânea coincidiu com o fim da dominação napoleônica na Alemanha.

O que não imaginavam era o sucesso que fariam entre as crianças, o que fez Wilhelm suavizar as histórias nas versões seguintes. "O público infantil não constituía um objetivo da primeira edição, com forte interesse filológico e concebida no espírito do movimento romântico, voltado para as raízes populares da arte e da cultura", explica Mazzari. A "violência" na versão original sempre foi uma questão controversa entre educadores. Fato é que a primeira versão é um retrato mais próximo de uma época em que fome e miséria castigavam a população e injetá-la de sutilezas é negar uma parte da história. Ou nas palavras dos Grimms: "Nada pode nos defender melhor do que a própria natureza, que deixa crescer flores e folhas com determinadas cores e formas; aquele para quem elas não são salutares, pode facilmente passar por elas ignorando-as; mas não pode exigir que elas sejam tingidas de outra cor ou que tenham outra forma".

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