Iraniana Shirin Neshat abre mostra no Rio

Eis aqui uma muçulmana que jamaispoderá ser acusada de espetaculosa. A artista iraniana ShirinNeshat, apesar de viver nos Estados Unidos há 23 anos e deproduzir no circuito mercantilista das galerias americanas eeuropéias, faz uma arte delicada e ungida pela sensibilidade dosantigos artesãos persas - um trabalho que nunca arderá nomármore dos infernos do show biz, nem sob coação.Parte de sua produção desembarca amanhã no CentroCultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, na primeiraindividual de sua carreira, intitulada Entre Extremos. Aprimeira instalação chama-se Tooba, destaque da 11.ªDocumenta de Kassel, na Alemanha. A segunda é uma trilogia deinstalações de vídeo, produzida em seqüência - Turbulent(1998), Rapture (1999) e Fervor (2000).Shirin Neshat, de 45 anos, tem o islamismo como base desua arte e luta para ajudar a "tirar o véu de uma cultura quedesperta uma mistura de interesse, raiva e medo no Ocidente",como escreveu uma jornalista da revista Time.Shirin também está com uma obra em exposição noGuggenheim de Nova York, na mostra Moving Pictures, chamadaPassage, na qual também exercita suas evanescências visuaisque trazem mulheres com burkas e homens em procissão carregandoum corpo em ritmo fúnebre. Ela montou a obra a convite docompositor Philip Glass."Eu penso que a minha arte é um sistema de poesiavisual, não se trata de um manifesto político ou coisa do tipo", disse Shirin à reportagem. "Acho que pode afetar as pessoas dediferentes maneiras, mas o objetivo é que, principalmente, aspessoas pensem sobre aquilo durante um longo tempo."A arte de Shirin começou a causar grande impacto nosEstados Unidos após a série fotográfica Mulheres de Alá, naqual ela examinava a presença da mulher no islamismo. "Adecisão de ser um mártir não é algo muito bem entendido noOcidente, a questão do sacrifício do corpo, da vida, em nome dafé", ela reflete. "Estudei isso por muito tempo para tentarchegar ao âmago do desentendimento, e acho que a questão básicaé por que eles chegam a esse ponto - eu penso que é porque nãohavia escolha."Simpática, fascinada com a profusão de "pessoas nuas"pelas ruas do Rio de Janeiro, onde está pela primeira vez, eladisse que esperava havia muito tempo para vir ao País. "É oextremo oposto do Irã, há muita liberdade e muita mistura, alémde uma fascinante inclinação artística", considerou. Ela tambémcomentou o fato de uma exposição sua prevista para ocorrer emSão Paulo, no Instituto Ohtake Cultural, ter sido cancelada logoapós os atentatos de 11 de setembro nos Estados Unidos."Acho que não tem relação, as reações no Brasil forammuito diferentes das reações na América e eu não creio empreconceito", ela disse. A artista também foi destaque na 25.ªBienal de São Paulo, que exibiu uma videoinstalação sua. Mas nãoveio à cidade. "Não me convidaram", ela diz, rindo. "Mas euentendo, era um grande grupo de artistas, ficava impossíveltrazer todos." Tooba, a instalação montada no CCBB, mostraa recriação da lenda persa da Tooba (nome que designa árvoredo paraíso em farsi, o idioma falado no Irã).

Agencia Estado,

09 de agosto de 2002 | 17h08

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