<i>Os Lusíadas</i>, de Camões, será montado na estação Júlio Prestes

Estréia no dia 15 de novembro, no grande saguão da Estação Júlio Prestes (centro de São Paulo), uma das maiores superproduções teatrais da temporada, a versão do clássico Os Lusíadas, de Luís de Camões, obra-chave da língua portuguesa escrita em 1572. A produção, que custará cerca de R$ 1 milhão, é da empresária e atriz Ruth Escobar. A direção foi confiada na tarde de sexta-feira a Gerald Thomas. "É um garotinho que eu vi crescer e que se tornou um dos mais importantes diretores do Brasil", conta Ruth Escobar, que conheceu Gerald no início dos anos 80 e com quem diz manter uma relação "de mãe e filho". O arquiteto Ruy Otahke estréia no teatro fazendo o cenário dessa aventura. No elenco, há poucos nomes já definidos, entre eles os atores Duda Mamberti e Volney de Assis. As coreografias serão dirigidas por Suzana Yamauchi. A Petrobrás financia boa parte da montagem, além do Ministério da Cultura, que entrou com R$ 300 mil. O diretor e roteirista Djalma Limongi Batista gastou três meses na adaptação da obra. "Hoje, ao propor novamente uma montagem teatral de Os Lusíadas, no romper de novos séculos e milênio desta civilização, sob a égide dos internautas e dos astronautas, mas também sob a ruína das utopias substituídas pela força das etnias, subitamente se revela para nós uma identidade tão singular quanto bela e grandiosa", diz Limongi.O grande saguão da Estação Júlio Prestes deverá ser isolado do movimento dos passageiros de trens por uma grande parede. Ruth Escobar tem intenção - e conta para isso com o apoio do secretário de Estado da Cultura, Marcos Mendonça - de transformar o espaço num bunker habitual de produções teatrais na cidade.Grandes estruturas e máquinas dispostas num ambiente de 14 metros de altura deverão ser o cenário da montagem. "O barulho dos trens não será problema, porque haverá um isolamento", diz Ruth Escobar. "Mesmo sem isolamento, o barulho não é tão grande, porque os trens diminuem a velocidade quando estão chegando à estação", diz.Ruth Escobar já tinha encenado, nos anos 70, o espetáculo A Viagem, no qual contrapunha o texto do poema de Camões à realidade política do Brasil daqueles dias, sob o regime militar. "Agora estou interessada apenas na poética de Camões, o homem e seu impulso pelo desconhecido", ela diz. "É também uma coisa da minha relação com Portugal, algo que é mais do que a memória afetiva, é algo carnal, uma coisa muito forte" ela diz.Não à toa, o espetáculo - que se integra às comemorações dos 500 anos do Descobrimento - vai no ano que vem para a cidade do Porto, que será a capital cultural da Europa em 2001. Ruth embarca para Portugal daqui a dez dias para acertar detalhes de patrocínio e datas.Gerald Thomas na direção - Ruth Escobar demorou para chegar ao nome do diretor do espetáculo. Inicialmente, o projeto seria com José Possi Neto, mas não deu certo. Houve mais duas tentativas frustradas. Gerald Thomas sempre esteve nos planos, ela conta, mas sua agenda muito cheia impedia a concretização de um acordo - até a semana passada, ele estava com um contrato com o Sesc, que acabou rompendo para dedicar-se à nova empreitada. Ruth tem lembranças engraçadas de sua relação com Thomas. Conheceu o diretor antes de ele tornar-se diretor. Quando ele lhe mostrou sua primeira montagem, em vídeo, ela não acreditou muito. "Você não tem a menor chance, você não é de teatro, é um artista plástico", ela lembra ter-lhe dito. "Depois, vi que me enganara."Os Lusíadas - Djalma Limongi dividiu sua versão de Os Lusíadas em dez partes. Na primeira, trata da partida de Vasco da Gama, então com 18 anos, em direção às Índias, nomeado para a missão por d. Manuel I, o Venturoso. Na segunda parte, trata do conselho dos deuses reunidos no Olimpo, debatendo a aventura de Vasco da Gama - os personagens são Vênus, Baco e Júpiter, entre outros. Na terceira parte da versão, Vasco da Gama enfrenta a solidão e os problemas de quatro meses em alto-mar, sem provisões e água. Na quarta, há o contato com povos desconhecidos. Em O Gigante Adamastor, o encontro com o ser mitológico e a travessia do Cabo da Boa Esperança. Na sexta parte, volta o debate dos deuses, que temem que o feito de Vasco da Gama abra as portas do cristianismo ao mundo.Na sétima parte da adaptação, o herói português chega ao reino de Melinde, no dia 5 de abril de 1498, e estabelece a primeira aliança além-mar dos portugueses. Em seguida, Vasco da Gama debate-se entre intrigas, lutas e seqüestros em Calicute, Índia. Após tantas desventuras, Vênus resolve premiar os portugueses por sua bravura e os leva para uma ilha paradisíaca. No trecho final, eles retornam em triunfo a Lisboa."Montar no teatro Os Lusíadas é como mapear o genoma de nossa cultura, a base lingüística de todos os povos da lusofonia e a síntese de seus imaginários nos quatro continentes", escreve Ruth Escobar. Para o adaptador, é uma tarefa também didática, a de perpetuar e fazer renascer o "mito referencial" contido no poema de Camões."Se a criação do homem ocidental principia em Homero; se Virgílio atrela o império de Roma ao pensamento clássico helênico; e o mesmo gesto é reproduzido por Dante, que expressa os mitos da fusão cristã ao clássico do homem mercantilista, e se, ainda, o mesmo gesto será revigorado pelo homem ocidental moderno, que se mitifica em Shakespeare; nós somos Camões", diz Limongi.

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