Ioiô e Iaiá

John Malkovich. Lembram?

Lucia Guimarães, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2012 | 03h08

Suas memórias podem ser diferentes das minhas.

Para mim, ele é o ator do grupo Steppenwolf Theater de Chicago que, na década de 80, em companhia de talentos como Joan Allen, Gary Sinise e Glenne Headley, participou da produção premiada da peça True West, de Sam Shepard. O homem que inspirou um clássico do cinema independente, Quero Ser John Malkovich. Ótimo ator em Ligações Perigosas, Na Linha de Fogo e nem tanto em filmes fáceis de esquecer.

Às vezes, me cansava de ver John Malkovich fazer papel de si mesmo. Como bem descreveu a comediante Tina Fey, na paródia de Sarah Palin que contribuiu para a desmoralização da ex-governadora: fazendo aquela coisa "mavericky", que se pode traduzir como "rebeldoso".

Não prestei atenção quando Malkovich criou a griffe de roupas Technobohemian. Nem me emocionei quando, há quase 10 anos, visitei o clube Lux de Lisboa, um templo de alto design e teatralidade hiper-cool do qual Malkovich é sócio. O homem entendia da pós-ironia do começo de milênio

Outro dia, estava multitarefando com a televisão ligada quando a ária "Un bel di vedremo", de Madame Butterfly, me chamou atenção: lá estava John Malkovich com seu sorriso coringa, refestelado numa poltrona, dando ordens para Siri, num comercial do iPhone. Pode alguém se canibalizar de tanta ironia? Já começaram as paródias do comercial pelo Twitter. Para quem foi submetida a anúncios de cartão de crédito com Martin Scorsese, não posso clamar inocência.

No primeiro filme da campanha publicitária, ao som da ópera, Malkovich suspira: "Vida..." A metálica voz digital não hesita: "Tente ser bom para os outros, evite comer gordura, leia um bom livro de vez em quando, caminhe um pouco e tente viver em paz e harmonia com gente de todos os credos e nações".

O senhor de Siri responde: "É um conselho bem espetacular. Obrigado. Gostei imensamente desta conversa".

No segundo filme, Malkovich pede a previsão do tempo, pergunta o que tem para fazer à noite, diz "linguiça" e Siri joga na tela do iPhone vários endereços de restaurantes que servem linguiça, inclusive um oportuno "Via Brasil". Como garoto propaganda de Siri, Malkovich é quase um aplicativo humano. A mulher sintética do iPhone existe para atrair gente intimidada por tecnologia mas que não quer ser excluída do consumo digital. Nada melhor do que um símbolo da distância emocional, de quase 60 anos.

"Creepy", dissemos, quase em uníssono, uma professora da NYU e eu, quando mencionamos o comercial. Ela é historiadora de comunicações e ambas tivemos a mesma reação depois de assistir aos comerciais. "Creepy" quer dizer algo arrepiante, que provoca desprazer. Não estávamos assustadas com o poder de Malkovich de evocar um assassino serial. Reagimos à ironia de ver um produto da imaginação do outrora rebelde Steve Jobs promovido como uma esposa stepford.

O romance satírico Stepford Wives, de Ira Levin, lançado há 40 anos, se passa numa cidade idílica de Connecticut, onde uma jovem casada e recém-transplantada de Nova York suspeita que as obedientes esposas locais foram transformadas em robôs por seus maridos. O romance foi filmado duas vezes, a última em 2004, com Nicole Kidman e Matthew Broderick e gerou a expressão "stepford wife" - a esposa submissa, doméstica e sempre impecável.

Depois de satisfazer seu capricho por linguiça, Malkovich pede a Siri para contar uma piada: "Bip, bip, dois iPhones entram num bar.... esqueci o resto..." O senhor de Siri cai numa gargalhada instantânea e aprova: "É engraçado!" A conversa termina num tom de sedução entre a casa grande e a senzala digital.

"Creepy", repetimos, a minha interlocutora e eu.

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