<i>O Púcaro Búlgaro</i> mistura narrativa e ação dramática

Dirigida por Aderbal Freire-Filho, apeça O Púcaro Búlgaro chega a São Paulo - estréia neste sábado, 21, para o público, no Sesc Anchieta - depois de fazer temporada degrande sucesso no Rio, no Teatro Poeira, de Marieta Severo eAndréa Beltrão, também produtoras da montagem, onde ganhou trêsprêmios Eletrobrás, nas categorias de melhor espetáculo, diretore ator para Gillray Coutinho. Mas a premiação não é nem de longeo maior atrativo - há outros mais importantes. O primeiro motivo para conferir a montagem está no livrohomônimo que lhe dá origem, de Campos de Carvalho, consideradoobra-prima da literatura brasileira. O segundo atrativo estáestreitamente ligado ao primeiro, pois se trata da forma como olivro é levado à cena, uma vez que, nessa montagem, AderbalFreire-Filho retoma a linguagem que ele chama de ?romance emcena?. O que vem a ser? O mais óbvio é a ausência de ?adaptação? literária, aspalavras ditas em cena são exatamente as mesmas que o leitorencontra no livro. Mas a ?chave? dessa linguagem está na misturaentre narrativa e ação dramática. Os atores ?narram? a ação emterceira pessoa, mas agem em primeira: por exemplo, um atordiria "ela vai, trôpega, até a janela" ao mesmo tempo em queassumiria a ação de ir até a janela como se fosse uma mulher."Eles falam na terceira pessoa, referem-se a um outro, emqualquer tempo, passado ou futuro, mas agem sempre no presente,como se fossem esse ?outro? narrado", diz Aderbal.Jogo de ilusão O resultado, já visto pelos paulistanos em O Que DizMolero, é vibrante. Poucos atores - Gillray, Augusto Madeira,Isio Ghelman, Ana Barroso e Sávio Moll em O Púcaro Búlgaro -conseguem trazer para a cena, nesse jogo de narrar e viver a umsó tempo, dezenas de personagens. "O romance em cena é o jogo deilusão no teatro levado ao paroxismo, verdade e mentiraescancaradas simultaneamente, o eu e o outro declarados, odiscurso em terceira pessoa e a ação em primeira pessoa", defineAderbal no programa da peça. Em O Púcaro Búlgaro, livro e peça envolvem oleitor/espectador num alucinante jogo de palavras e imagens quenarram a organização de uma bizarra expedição organizada pelopersonagem Hilário, cujo objetivo é provar a existência ou nãoda Bulgária. Como assim? "Estava em Paris recentemente e vi umagrande exposição sobre a arte moderna dos anos 20 aos 60 e nãohavia nada sobre o Brasil. Nem na arquitetura, nem na pintura. A cultura africana é muito importante na formação do Brasil, ok,mas nossa base educacional é européia. Nós sabemos da Europa, noentanto, não existimos no mapa cultural deles", diz Aderbal. "SeCampos de Carvalho tivesse escrito esse romance genial emfrancês, a repercussão seria outra. Na literatura, é um romanceprotagonista por merecimento, marginal por geografia."Jogo de palavras O jogo de palavras, sem dúvida, é uma das qualidades dotexto que fazem a delícia do leitor ou espectador. Outra é aconstrução dos personagens, gente como o professor debulgarologia Radamés, nascido no Ceará, ou Pernacchio, o homemque ficou inclinado depois de morar muito tempo perto da Torrede Pizza, ou o Ivo que viu a Uva, que se integra à expedição como objetivo de ver as uvas búlgaras. "O romance me atraiu portudo isso e também pela discussão filosófica sobre o real", dizAderbal. Ele lembra que o tema já estava, embora explorado deoutra forma, em Turandot, de Brecht, peça que já levou aopalco. "Nessa peça, um grupo se reúne num mosteiro, às margensdo Rio Amarelo, e discutem se o rio existe em si ou apenas pormeio da percepção deles - vem uma enchente e leva embora omosteiro." O Estado acompanhou um ensaio de O PúcaroBúlgaro no Sesc Anchieta, na noite de quarta-feira. "Estamostrabalhando muito por dois motivos: adaptação ao novo espaço epor termos ficado quatro meses sem fazer o espetáculo", dizAugusto Madeira. Não é mesmo pequena a mudança na disposiçãoespacial da cena. No Teatro Poeira, palco e público formavam umdesenho quadrado. Formato de HQOs atores tomavam todo o centro do quadrado,inclusive as laterais, cercadas por duas pequenas plataformasque a um só tempo servem de coxias - os atores ficam o tempotodo visíveis para o público enquanto guardam ou pegam objetosde cena - e também servem de ?engrenagens? que movem o tempo edão andamento à expedição. Aqui em São Paulo o espetáculo tornou-se frontal. Opúblico ainda vê os atores dentro dessas plataformas naslaterais do palco, mas toda ação se passa num retângulo estreitoe comprido, no centro do palco. "Fiz várias tentativas e essafoi a melhor, remete ao formato das tirinhas em quadrinhos, sócom muito mais profundidade", afirma Aderbal. Detalhes quecertamente não vão tirar a qualidade do trabalho de uma equipeexperiente. E muito menos o prazer do público. O Púcaro Búlgaro. 100 min. 14 anos. Sesc Anchieta . Rua Dr.Vila Nova, 245, 11-3256-2281. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 20. Até 27/5

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