Involução francesa

A rede proprietária do hotel nova-iorquino onde Dominique Strauss-Kahn é acusado de ter estuprado uma arrumadeira imigrante da Guiné passou a oferecer às colegas dela a alternativa de usarem calças compridas como uniforme no trabalho. O alegado ataque ocorrido no dia 15 de maio já inspirou uma proposta para que as arrumadeiras de hotéis da cidade carreguem consigo um pequeno aparelho com um chamado "botão de pânico", para o caso de um dirigente de uma instituição internacional sair pelado do banheiro, tomado de uma súbita nostalgia colonialista, ou, quiçá, sob o efeito de alguma pílula azul.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2011 | 00h00

Ninguém sabe o que aconteceu no quarto número 2.086 do hotel da Rua 44. Mas o que ocorreu depois inclui um desfile de misoginia, racismo, sensacionalismo, elitismo e populismo que vai deixar marcas.

Assim como a professora Anita Hill, em 1991, não impediu a ascensão do medíocre juiz Clarence Thomas à Suprema Corte americana, mas provocou uma redefinição do que constitui assédio sexual, dificilmente o status quo será mantido na França, ainda que a equipe milionária de advogados contratada por Dominique Strauss-Kahn consiga prevalecer sobre a arrumadeira de 32 anos.

É bom lembrar que um dos advogados de Strauss-Kahn defendeu Michael Jackson, acusado de pedofilia, o rapper Sean "Diddy" Combs, visto por várias testemunhas disparando uma arma numa briga noturna, e o chefão mafioso Vincent "O Queixo" Gigante. Tutti buona gente.

O conhecido perp walk, o hábito de fazer acusados de crime desfilar de algemas na frente das câmeras, é costume lamentável da Justiça americana, aperfeiçoado por Rudolph Giuliani, o ex-promotor público que se tornou prefeito e ainda ameaça concorrer a presidente. O perp walk faz com que o acusado seja presumido culpado e - ironia - costuma humilhar os criminosos pobres e os muito ricos e poderosos como DSK, o ex-diretor do FMI, também conhecido pelo carinhoso apelido de lapin chaud. Perdão, em francês soa menos repugnante.

No dia 6 de junho, o acusado e ex-futuro candidato favorito a presidente da França vai voltar ao tribunal para ser arrolado formalmente. E não é preciso bola de cristal para prever uma campanha para atacar a credibilidade da imigrante da Guiné. Mesmo com rumores de DNA positivo, os casos de estupro sem testemunhas acabam decididos na queda de braço do "ele disse, ela disse".

A aberrante absolvição, na semana passada, de dois policiais nova-iorquinos acusados de estuprar uma mulher, embriagada, que pedira ajuda a eles, é sinal de que, no território do crime sexual, é difícil conseguir justiça.

O jogo vai ser tão sujo que duas figuras importantes de Nova York - um ex-diretor de uma fundação de defesa dos direitos civis e um ex-promotor público - se uniram para proteger a moça que acusa Strauss-Kahn de estupro.

Há poucos dias, fui convidada para comentar num programa sobre a "paranoia americana com o assédio sexual", supostamente exacerbada pelo caso DSK. Fico muito lisonjeada quando alguém me confere credibilidade e muito deprimida quando um caso que tem elementos altamente prováveis de crueldade, abuso de poder, impunidade e racismo é visto como uma oportunidade de mais uma vez chamar o povo americano de débil mental. O estupro não tem nada a ver com sexo, é um crime hediondo para subjugar o outro.

Fico insultada quando um editor francês sofisticado como Jean-François Kahn desmerece a acusação contra seu compatriota homônimo dizendo que foi só uma rápida troussage de domestique, ou seja uma "transadinha" com a empregada.

Fico impressionada com o mau gosto dos jornalistas europeus e americanos que compararam o alegado estupro em Manhattan com um metafórico estupro do Terceiro Mundo pelo FMI. O suposto estuprador literal do FMI era saudado como o antiestuprador metafórico - comprou briga com a Alemanha para pegar leve com a Grécia e criticou agressivamente os clepto-banqueiros americanos.

Mas nada embrulha mais o estômago do que o "filósofo" Bernard Henry-Lévy que, um dia depois do perp walk de seu querido Dominique, perguntou: Como um juiz americano se atreve a entregar DSK para os fotógrafos, como se ele fosse sujeito à Justiça como qualquer outra pessoa? (Pausa de dez segundos para reler a sentença anterior).

Sim, porque DSK não é uma pessoa igual à maioria das pessoas. Como membro da elite de seu país, é tão improvável que ele estuprasse uma arrumadeira - ou não entendesse o significado de "Não!" -, que mais da metade dos franceses está convencida de uma conspiração que montou a armadilha no quarto do hotel. Ele tem a liberté de agarrar quem quiser, como foi amplamente demonstrado por outros depoimentos de mulheres, desfruta a egalité no topo e conta com a fraternité de seus colegas que mantêm silêncio cúmplice sobre o homem que fez do assédio sexual uma carreira à parte.

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