Divulgação
Divulgação

Investindo em dramaturgia própria

Em 'O Patrão Cordial', a Cia. do Latão reafirma filiação a um teatro pedagógico que desperte a imaginação do público

DANIEL SCHENKER - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2013 | 02h15

RIO - A Companhia do Latão realiza uma apropriação de O Senhor Puntila e Seu Criado Matti, peça do dramaturgo alemão Bertolt Brecht datada de 1940, no espetáculo O Patrão Cordial, que também nasceu de uma articulação com Raízes do Brasil, livro de Sérgio Buarque de Holanda publicado em 1936. Por meio desses elos, o grupo conduzido por Sérgio de Carvalho busca abordar uma cordialidade já distante - apesar de não totalmente ausente - da elite, que hoje assume de forma mais direta suas tomadas de posição.

Apresentada desde agosto de 2012 em espaços variados (escolas de teatro, colégios da rede pública, assentamentos, regiões na periferia e no interior de São Paulo), a montagem faz sua primeira temporada, a partir de quarta-feira, no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio, logo depois de integrar a programação do Festival Cena Brasil Internacional. No segundo semestre, a encenação deverá desembarcar em São Paulo.

Em O Patrão Cordial, Puntila se torna Cornélio e Matti, Vitor. De acordo com o diretor Sérgio de Carvalho, "o primeiro nome tem sonoridade que remete a coronel e o segundo, à crença na esfera do trabalho". A ambientação na Finlândia é substituída pela região do Vale do Paraíba. E a ação é transferida para a década de 1970 (o Brasil de Emílio Garrastazu Médici). Uma época em que havia mais patrões cordiais, ambíguos - como Puntila, mais afetuoso quando embriago e irascível quando sóbrio. O contraste entre a visão de mundo de personagens - alguns pouco vinculados ao plano real, outros comprometidos com uma perspectiva concreta, pragmática - que parecem viver em períodos distintos evoca o universo de Anton Chekhov, autor que Sérgio de Carvalho planeja encenar.

Esse novo espetáculo reúne características centrais da Companhia do Latão, fundada em 1996, como a revisita à figura do homem cordial (presente, anteriormente, em Auto dos Bons Tratos); a verticalização do trabalho sobre a obra de Brecht (que rendeu as montagens de Ensaio sobre o Latão, Santa Joana dos Matadouros e O Círculo de Giz Caucasiano) - ainda que dessa vez canalizada para a produção de uma dramaturgia própria; a filiação a um teatro pedagógico, de natureza didática; e o investimento na imaginação do espectador. Este último elemento pode ser percebido na inserção da música (de Martin Eikmeier) dentro do espetáculo e numa proposta cenográfica (de Cassio Brasil) voltada para o essencial, na qual tablados de madeira são manipulados pelos atores para sugerir ambientes diversos. O Patrão Cordial conta no elenco com dois atores que estão na companhia desde o início: Helena Albergaria e Ney Piacentini.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.