Investigação em fragmentos sobre a perturbação

Um bom assassinato, um legítimo assassinato, um belo assassinato - declara o policial a repórteres. "Tão belo quanto era de se desejar." A frase faz parte da peça Anatomia Woyzeck, da Cia Razões Inversas. Nela, talvez até mais do que em Agreste ou Anatomia Frozen, vê-se como a violência é um fenômeno complexo e que resiste a explicações simplistas. 

Daniel Martins de Barros *,

10 de maio de 2013 | 02h09

O texto da peça inacabada de Georg Büchner - uma das mais importantes do teatro do século 19 - foi inspirado pelo caso real do soldado Johann Christian Woyzeck, que assassinou sua companheira e mãe de seu filho em 1821 na cidade de Leipzig. Preso, logo foi alegada insanidade mental por sua defesa, levando o caso a se arrastar por dois anos entre avaliações e laudos psiquiátricos. Dos médicos locais até a Faculdade de Medicina da Universidade de Leipzig, muito se debateu sobre a causa do homicídio e a responsabilidade de Woyzeck, até que, a despeito de um quadro psicótico, ele foi executado.

Mas a riqueza da peça, preservada na presente montagem, consiste em não reduzir a discussão a relações de causa e efeito. A violência cometida pelo protagonista já quase no final do espetáculo é só mais uma no meio de tantas que cercam sua vida, desde a subtração de sua autonomia - como soldado ou como cobaia de experiências médicas - até o fascínio com que o crime é escrutinado pela sociedade. O mundo é violento. Ponto.

Psicótico ou não, responsável ou não, a dramatização do caso Woyzeck levanta questões profundas sobre a violência como produto de si mesma, indo além do universo da loucura. Menos do que o quadro clínico, é a perturbação que fica em primeiro plano, representada pela narrativa fragmentada da peça, pela sucessão de cenas em ordem não cronológica e pelo revezamento que os atores fazem em cena. O desconforto que se cria no espectador consegue dar uma ideia de quão perturbado estava Woyzeck, levando a pensar quem, sendo ou não louco, não ficaria violento naquela situação.

* Daniel Martins de Barros é coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.
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