"Inverno Quente" sai em vídeo

O alemão Tom Tykwer ficou conhecido por seu exercício de drama aeróbico Corra Lola, Corra, que participou do Festival de Veneza em 1998 e foi saudado como exemplar de um novo cinema alemão. Mais leve, jovem e solto. Chega agora, em vídeo, Inverno Quente, que Tykwer filmou antes de Lola. A boa surpresa: embora com menos qualidades óbvias para se tornar um cult, como Lola, Inverno Quente se revela um trabalho de maior consistência, dramática e cinematográfica. É mais filme.Em Inverno Quente, Tykwer já havia definido seu universo de interesse, depois aplicado de maneira pop em Lola: a maneira como o acaso, ou os pequenos acontecimentos da vida, podem tornar-se radicalmente importantes para o destino dos personagens envolvidos. No caso, são cinco os personagens que interagem, um instrutor de esqui, uma tradutora, uma enfermeira, um fazendeiro arruinado e um ator. Eles se reúnem em circunstâncias banais. E trágicas. A tradutora namora o instrutor de esqui. Ela é amiga da enfermeira e esta tem um caso com o ator. O fazendeiro simplesmente entra na história quando leva um potro para o veterinário, e não percebe que sua filha pequena embarcou no trailer para acompanhar o animal. Essas vidas se unem por um acidente de trânsito na estrada tornada escorregadia pelo gelo.Destinos cruzados, que lembram um pouco a famosa "quadrilha", de Carlos Drummond e evocam o clima dos romances de Paul Auster. Drummond é sublime. Auster nem tanto, mas parece o típico escritor da modernidade, tentando abrir caminho próprio na vacuidade contemporânea. Esta não contempla mais as grandes sínteses políticas - por exemplo, os recentes romances de Philip Roth, como Pastoral Americana ou Casei com um Comunista, parecem os majestosos estertores de uma espécie em extinção. Assim, é preciso se conformar com Auster ou Martin Amis, ficcionistas de qualidade, mas limitados pelo tempo em que vivem. Os equivalentes cinematográficos desses escritores começam a surgir e Tykwer é um deles. Aliás, Auster já forneceu argumento para um longa de Wayne Wang e ele próprio dirigiu a continuação do primeiro.O que diz um cineasta como Tykwer? Que chegou a hora de cuidar das nossas vidas individuais, e que estas acontecem em um quadro social que mal entra como pano de fundo. Há cenários, que em nada interferem na ação dos personagens. Estão lá, como as paredes de um teatro que enquadram e delimitam os movimentos dos atores, mas em nada os alteram. São neutras. Em Lola, vê-se a Alemanha urbana, uma cidade que não se distingue de outras tantas cidades modernas que existem mundo afora. Em Inverno Quente, são as neves de uma estação de esqui e tudo o que a cerca, a paisagem branca, a imensidão implacável dos Alpes.Vidas particulares, que se aproximam e se afastam, se amam e se destroem. Regidas pelas vontades individuais apenas em aparência. Há, entre elas, e sobre elas, uma espécie de pequeno deus malicioso, o acaso, que zomba dos grandes planos e embaralha mesmo as pequenas decisões. Como não existem projetos coletivos, fica-se com os individuais. E estes são risíveis, não se cumprem e se dissolvem no nada. Tal é a instabilidade contemporânea, flagrada com talento por Tykwer. Inverno Quente não consegue, provavelmente nem busque, nenhuma transcendência no tratamento do seu tema. Fica na superfície, talvez como opção estética, pois o mundo em que se inscreve é, ele também, superficial. Mas não deixa de ser um filme bem interessante.Inverno Quente (Wintersleepers). Alemanha, 1997. Cannes Video. Nas locadoras.

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