Inventário sentimental

'É Assim Que Você a Perde', terceira ficção do premiado Junot Díaz, é lançada no País

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2013 | 02h18

Um tema permeia a diminuta, mas festejada por crítica e público, obra de Junot Díaz: o ser imigrante. É sua condição. Díaz nasceu na República Dominicana em 1968 e em 1974 se mudou com a mãe e os irmãos para os Estados Unidos, onde o pai vivia o sonho americano. Cresceu em New Jersey, trabalhou para poder estudar, se formou, começou a escrever literatura e ganhou muitos prêmios. Hoje ensina escrita criativa no Massachusetts Institute of Technology (MIT) e é editor de ficção do Boston Review. A biografia é parecida com a de Yunior, o protagonista de É Assim Que Você a Perde, sua terceira ficção, que chega agora às livrarias brasileiras pela Record, mas que já apareceu em outros trabalhos do escritor. Incluir elementos biográficos em sua literatura - ou que o leitor faça essa relação - não o incomoda.

Junot Díaz estreou na ficção em 1996 com os contos de Afogado. E veio aquele bloqueio típico de quem é apresentado como uma promessa. Uma década depois, lançou o romance A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao, vencedor, em 2007, do prestigioso Pulitzer, entre outros prêmios. É Assim Que Você a Perde só sairia cinco anos depois - mas é preciso dizer que seu processo tomou 16 anos da vida do autor. "Sou o escritor mais lento que conheço", diz Díaz, em entrevista por e-mail.

A obra lançada agora, que figurou a lista dos livros mais notáveis do New York Times em 2012 e teve menos sorte nos prêmios, mistura os dois gêneros já experimentados pelo escritor. São nove contos com os mesmos temas: mulheres, amor e traição. Deles, oito têm Yunior como protagonista ou narrador. O único que não faz referência a seu nome conta sobre um imigrante dominicano que tem uma namorada nos Estados Unidos e mulher e filhos no país de origem, numa aproximação do autor-narrador com seu pai.

Yunior está na casa dos 40. Nesse tempo, acumulou uma enorme lista de amores e frustrações. Quando perde a mulher que realmente importou em sua vida - um luto que demoraria pelo menos cinco anos para ser elaborado - ele resolve fazer um inventário de suas histórias amorosas. Professor universitário e escritor, Yunior carrega nas gírias (traduzidas como piriguete, bruaca, marombeira, pegador, sacação) e nos palavrões e parece que o livro que ele está escrevendo, e que é o livro que lemos, foi feito por alguém que ainda está ali no estacionamento do conjunto habitacional em que cresceu, conversando com amigos, contando vantagem e amargando uma dor de cotovelo.

Ao fazer o levantamento dos amores que desperdiçou, Yunior tenta mostrar, talvez para si mesmo, que é mais sensível que os homens de sua família, que o gene mulherengo de seu pai, que passou para o seu irmão, não está nele. E está. "Ele é profundamente ciente das consequências da masculinidade e ainda assim é incapaz de abandonar essa prática - pelo menos até bem o final do livro", conta Díaz.

E ao contar essa história, o protagonista revive os momentos-chave de sua vida. A chegada aos Estados Unidos, a convivência com o pai de quem pouco se lembrava, o mundo interdito dos bonecos de neve e das brincadeiras no pátio, a língua aprendida com horas e horas passadas na frente da televisão, a infelicidade da mãe, a doença incurável do irmão.

Quando decidiu escrever esse livro, você o imaginava como um romance ou coletânea de contos?

Os dois e nenhum. Isso era parte do jogo do livro para envolver o leitor na escolha entre duas possibilidades fragmentadas.

Por que escrever essa história?

Era o que eu tinha vontade de escrever. Eu queria explorar as consequências da masculinidade - para quem se beneficiava dela ou era vítima. E queria fazer isso com um protagonista que desejava profundamente a intimidade.

Você escreve ficção ao mesmo tempo em que confunde seus leitores com personagens que se parecem com você ou com sua história. É uma brincadeira?

Eu não me importo em ter elementos autobiográficos no meu trabalho porque no cerne o que eu escrevo é ficção. Eu falo mentira como ganha-pão. Mentiras que criam nos leitores a possibilidade de ver a verdade.

O que mais te interessa na literatura?

Ver como ela educa a alma.

Escrever é leve ou pode ser pesado?

É trabalho duro, na maior parte do tempo.

Você não publica muito. Mas escreve bastante? Acredita em inspiração ou a escrita literária se resume à planejamento e construção?

Inspiração é uma grande coisa, mas não posso depender apenas dela. Para mim, ela raramente aparece. Talvez uma vez a cada seis ou sete anos. É como um mau pai que raras vezes mostra seu rosto. Não é algo de que você queria depender. De forma geral, meus livros são escritos com árduo trabalho. E um tanto de sorte.

O livro é apresentado como um guia de relações (fracassadas), mas no fim tudo retorna ao passado do protagonista, aos modelos que ele teve: o pai que abandona a família em outro país, o pai que reintegra a família para depois abandoná-la mais uma vez; o irmão, um herói, que pode ter todas as mulheres que queria e que morre sem dizer adeus. É mesmo um livro sobre o relacionamento entre um homem e suas mulheres e sobre traição?

Sim: tudo volta ao passado e às nossas próprias fraquezas e às más escolhas do presente. Para mim, o livro é sobre as forças, as pessoas e os relacionamentos em nossas vidas que tornam a intimidade quase impossível. Entre outras coisas.

É também um livro sobre a busca e a fuga do amor. Acredita que o amor seja possível?

Claro. A vida não valeria a pena sem a possibilidade do amor.

Você apresenta Yunior tanto como um mulherengo que abusa das gírias quanto como um erudito. Quem é Yunior? Alguém que fica entre dois mundos?

Para mim ele não fica entre dois mundos - ele habita os dois simultaneamente. Se ele está confortável no mundo? Bem, das pessoas que você conhece quem está confortável com o mundo? Esse lugar não é fácil para nenhum de nós. Quem é Yunior? Para mim, ele é uma figura comum nos Estados Unidos. Um cara que cresceu pobre e conseguiu chegar a uma das universidades top do país. Isso não é algo que acontece todos os dias na República Dominicana ou, posso imaginar, no Brasil, mas é mais comum nos Estados Unidos. Há toda uma geração exatamente como Yunior. Eu e muitos dos meus amigos também fizemos parte dessa geração e foi por isso que eu o criei dessa forma. Yunior também me interessa porque ele é profundamente ciente das consequências da masculinidade e ainda assim é incapaz de abandonar essa prática - pelo menos até bem o final do livro. Esse personagem tanto me enfurece quanto me enche de compaixão.

Por que misturar espanhol e inglês no texto?

Pareceu necessário descrever a realidade das comunidades sobre as quais eu estava escrevendo. No Caribe e em New Jersey, inglês e espanhol vivem na mesma casa. Eles podem brigar, mas eles também se conhecem intimamente.

Como a República Dominicana está presente na sua vida?

Vou lá cerca de três vezes por ano. São apenas três horas de voo de Nova York, então é fácil. E eu circulo pela comunidade dominicana nos Estados Unidos. Sou desse tipo de imigrante que ainda gosta de vagabundear com sua gente.

Trabalha num novo livro no momento?

Agora mesmo estou procurando meu próximo projeto. O que eu posso te dizer? Sou o escritor mais lerdo que conheço.

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