Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
Leonardo Finotti/Divulgação
Leonardo Finotti/Divulgação
Imagem Laura Greenhalgh
Colunista
Laura Greenhalgh
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Inventário de um bairro

Ao analisar 160 prédios e seus 90 autores, a 'Monolito' resgata a história de Higienópolis

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2014 | 02h07

São muitas as possibilidades de leitura de um bairro - pela geografia, pela sua gente, pela especulação imobiliária, pela preservação ou deterioração dos espaços, pela sua memória. Já na 19.ª edição, a revista Monolito mistura um pouco de tudo isso ao tratar de Higienópolis, na zona oeste paulistana. Mistura, mas segue em direção precisa, fiel ao compromisso de ser uma revista de arquitetura com olhar cultural. Ou seja, das pranchetas de onde brotaram prédios que ainda hoje particularizam a região é que a história do bairro é contada.

Com imagens captadas pelo renomado fotógrafo Leonardo Finotti, a edição se organiza a partir de um ensaio de Fernando Serapião, editor da revista e crítico de arquitetura. Ensaio que resulta de um inventário prévio de 160 prédios de interesse arquitetônico, projetados por 90 profissionais, cujas grifes se destacam no bairro de ruas arborizadas, com nomes de cidades e Estados brasileiros - Pará, Maranhão, Rio de Janeiro, Bahia, Aracaju, Sabará. É através da obra desses arquitetos que se entende o processo de verticalização de uma porção ainda charmosa da metrópole, vizinha tanto do centro antigo quanto da região da Paulista, e de cujas janelas (muitas) ainda se consegue divisar a Serra da Cantareira.

Morar em Higienópolis é conviver com um passado em camadas. Há a arquitetura remanescente do tempo em que famílias aristocráticas (Silva Prado, Álvares Penteado, Pacheco e Chaves, entre outras) se mudaram para lá, para viver em chácaras que por sua vez já ostentavam casarões com refinamento europeu, algo novo numa São Paulo ainda feita de taipa: são exemplares dessa época (passagem do século 19 para o 20) o palacete de Dona Veridiana, filha do Barão de Iguape, hoje sede social do Iate Clube de Santos; e a Vila Penteado, em estilo art nouveau, construída em 1902 pelo arquiteto sueco Carlos Ekman, hoje ocupada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. E por que a elite foi se encontrar naqueles ermos, quando os Campos Elísios já se configuravam como bairro nobre?

Porque os mesmos imigrantes que lotearam e urbanizaram os Campos Elísios, Victor Nothmann e Martinho Buchard, depois de ganhar muito dinheiro por lá, resolveram abrir outra gleba em região próxima. "Compraram duas áreas que somavam quase 570 mil metros quadrados, a sudoeste da chácara de Dona Veridiana", confirma Serapião, lembrando que eram terrenos altos, ensolarados, portanto, mais recomendados para espantar as doenças. O novo bairro nasceu com o nome de Boulevard Buchard, que não emplacou em seu francesismo, e acabou adotando o nome de um hotelzinho do lugar, o Higienópolis, que estranhamente pegou com seu apego à limpeza.

A partir dos anos 1930, com o início da verticalização do bairro, entram em cena arquitetos como o francês Jacques Pilon, também autor do projeto da Biblioteca Mário de Andrade, e o polonês Lucjan Korngold. Ambos se formaram no velho continente, mas fizeram carreira em São Paulo, mais como empreendedores do que como autores de projetos. "Pilon e Korngold tiveram outro paralelo: acolheram arquitetos europeus refugiados que, posteriormente, contribuíram para o patrimônio cultural do bairro", explica Serapião, referindo-se a Herbert Duschenes e Adolf Franz Heep, contratados pelo francês, e Jorge Zalszupin e Victor Reiff, pelo polonês.

E assim foi se constituindo uma primeira teia de profissionais importados, feita em boa parte de imigrantes judeus que acharam em São Paulo, e em Higienópolis, em particular, ambiente propício para edificar um trabalho inovador. Era gente com base sólida: Heep, por exemplo, que chegou ao Brasil no pós-guerra, fora aluno de Walter Gropius em Frankfurt e de Le Corbusier em Paris. No rol dos vários projetos que assina, está o Lausanne, na Avenida Higienópolis, com suas venezianas coloridas, como destaca Leonardo Finotti, um dos grandes fotógrafos de arquitetura da atualidade. O edifício foi construído entre 1953 e 1958, em lote desmembrado da Vila Penteado.

A pesquisa feita pela equipe da Monolito segue ampliando e inscrevendo na paisagem do bairro um elenco de arquitetos de procedências diversas - o paulista Rino Levi, parceiro de Roberto Cerqueira César em projetos marcantes, o milanês Giancarlo Palanti, que colaborou com Lina Bo Bardi no projeto do Masp, João Artacho Jurado, outro paulista, com sua arquitetura ornamentada e polêmica, ou o paranaense David Libeskind, também autor do projeto do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. Eram cabeças que ousaram no uso dos itens modernistas (colunas, pilotis, elementos vazados), no sequenciamento e ritmo das fachadas (mais horizontalizadas), no emprego de revestimentos (destaque total para as pastilhas coloridas) e fundamentalmente na proposição de espaços internos até então inusitados. Se, nos anos 1950, anúncios imobiliários vendiam a "quietude senhorial de Higienópolis", ao mesmo tempo se processava ali uma agitação arquitetônica. Entretanto, para a equipe da Monolito tal criatividade desaparece a partir dos anos 1970.

"Artigas, essa não vai passar! Dois riscos, sem nenhuma janela, isso não dá, não vai aprovar!" Fernando Serapião rememora a reação perplexa de um técnico da Prefeitura ao ver a fachada do Edifício Louveira, cujas janelas intencionalmente não abririam para a Praça Vilaboim, mas seriam perpendiculares a ela, contra todos os cânones. Ainda hoje um marco do bairro, essa obra rara segue como testemunho da crise criativa de um dos mais vigorosos arquitetos brasileiros, João Batista Vilanova Artigas. Ainda moço e querendo achar um caminho para a arquitetura paulista que não se limitasse a repetir o proposto por Le Corbusier e Niemeyer, Artigas, comunista confesso, foi beber da fonte do americano Frank Lloyd Wright ao conceber a integração dos espaços público e privado que se vê ainda hoje no Louveira - talvez um dos últimos prédios do bairro a não ter cercas de segurança.

Além de recuperar o trabalho dos arquitetos, a Monolito mostra reformas recentes em apartamentos nestes mesmos prédios. É certo que o desejo do cliente, associado ao talento do arquiteto, pode operar bons ou nem tão bons milagres. E daí gosto não se discute. Mas, o que se pode discutir com base na revista é justamente a preservação dos edifícios enquanto presença urbana. Sujeitos à onda do "retrofit", são alvo de reformas externas que chegam com grades padronizadas, câmeras de segurança e spots dignos de penitenciárias, homogeneizando fachadas numa sem-graceza que não condiz com a originalidade dos projetos. Não por acaso os prédios paulatinamente têm deixado de ser reconhecidos pelos nomes com que foram batizados: Gerivá, Buriti, Louveira, Prudência, Paquita, Indaiá... Nomes que durante décadas foram não só ponto de referência - "entrega lá, moço, no Cambuí" -, mas, acima de tudo, certificado de personalidade.

REVISTA MONOLITO

Editora: Monolito 

Edição: 19ª

Preço: R$ 89

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.