Inventário de paixões

Sucesso do teatro inglês, Equus analisa limites entre loucura e normalidade no amor extremo

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, CURITIBA, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2012 | 03h08

Paixões são flertes com o destempero, brechas que abrimos para o primitivo, o insensato, o irracional. Nada nos aproxima tanto de certa animalidade perdida. Mas o que nos torna humanos senão elas? Equus, peça do britânico Peter Shaffer, equilibra-se justamente sobre essa dualidade. No espetáculo, que passou pelo Festival de Curitiba e estreia hoje no Teatro Folha, existe um menino atormentado por seus sentimentos. Existe um psiquiatra anestesiado pela ausência deles. O encontro desses dois personagens, assim como de suas posturas antagônicas, conduz o enredo, que é sucesso nos palcos estrangeiros desde seu lançamento em 1973. Vencedor do prêmio Tony, o texto já mereceu algumas montagens no Brasil. A mais conhecida data de 1976, encenação de Celso Nunes, com Paulo Autran e Ewerton de Castro no elenco.

A atual versão é conduzida por Alexandre Reinecke, diretor conhecido por seu pendor pela comédia, que aqui se arrisca em uma obra densa e, por isso mesmo, de difícil realização. "É um texto muito bem escrito, que passa pelo drama, pela comédia, pelo suspense", avalia Reinecke. "A história também me parece muito atual por tratar de paixões viscerais e da forma como tentamos evitá-las."

No posto de protagonistas estão Elias Andreato, no papel do médico, e Leonardo Miggiorin, como o perturbado jovem Alan Strang. Um crime inexplicável e grotesco se coloca como ponto de conflito: sem nenhuma razão aparente, o menino foi capaz de cegar seis cavalos.

O mote da dramaturgia tem origem em um episódio real. Peter Shaffer ouviu o relato de um amigo e, mesmo sem conseguir descobrir os detalhes do ato bárbaro, resolveu desdobrá-lo em peça. Na ficção, Alan Strang é um menino suburbano, filho de um pai ateu e comunista e de uma mãe religiosa. Desde criança, mostrou-se apaixonado por cavalos. Trabalhava em um estábulo e gostava de ouvir as histórias sobre os cavalos que há na Bíblia. Mas, estranhamente, nunca cavalgava.

Após o crime, o rapaz é levado ao psiquiatra, Dr. Martin Dysart. Caberá a ele desvendar os traumas que possam explicar as atitudes de Alan. Um embate que também resvala em autoconhecimento para o médico. "Esse encontro faz com que ele desperte para o outro, para a sua própria falta de paixão. Fica evidente a vida anestesiada que ele leva, sem amor no casamento, sem interesse pela profissão", comenta Elias Andreato.

A história é narrada em flash-back. Uma trama de suspense na qual as peças vão gradativamente se encaixando. Ao longo das sessões com o médico, Alan retorna ao passado. Examina seu primeiro contato com um cavalo, durante o passeio que fez a uma praia quanto tinha 6 anos. Volta até as noites que passava sozinho no estábulo, ao momento do crime.

Durante esse percurso, acontecem as cenas que notabilizaram Equus ao redor do mundo. Recentemente, causou alvoroço a participação de Daniel Radclyffe em uma montagem do West-End londrino. A aparição do intérprete de Harry Porter nu provocou protestos de fãs. Além de uma óbvia corrida ao teatro, que esteve lotado durante toda a temporada. Em sua montagem, Alexandre Reinecke mantém as indicações do texto original, com momentos de nudez de Leonardo Miggorin. "Acho a nudez necessária nessa peça. É o momento em que ele está se revelando, se desnudando diante desse Deus que ele adora. Além de criar momentos de beleza plástica", observa o diretor.

O cenário de André Cortez elege módulos que podem lembrar as baias de um estábulo, uma clínica psiquiátrica ou uma prisão. Para evocar a presença dos cavalos, ele refutou a solução adotada por outras montagens e não utilizou bonecos que imitassem o animal. Preferiu, com o uso de alguns adereços, que os próprios atores ocupassem esse lugar. Além de buscar artefatos que lembrassem cavalinhos de brinquedo. "É um terreno perigoso. Foi o jeito de escapar do ridículo", considera Reinecke.

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