Inventário de coisas e delírios

Firmo e Morais reencontram Bispo do Rosário em livros

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2013 | 02h09

Arthur Bispo do Rosário (1911-1989) assumiu uma árdua tarefa quase no final de sua vida: representar tudo o que existia na Terra ­o que ele conhecia e o que ele não conhecia. A missão foi dada pela voz que o guiava, e ele, obediente, pôs-se a escrever, pintar, bordar o mundo. Bispo era Jesus. Acreditava mesmo nisso. Para os outros, só mais um louco da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, que passava seus dias acumulando canecas, botões, pregos, cacos de vidro, sapatos, uniformes que, desfeitos, virariam linhas de bordado, etc. Viveu anônimo em seu delírio até o ano de 1980, quando Samuel Wainer Filho fez uma reportagem sobre o manicômio para o Fantástico.

Do outro lado da tela, o crítico de arte Frederico Morais assistia. "Fiquei impressionado com a imagem dele naquela barafunda. Vi que era alguém que estava querendo deixar seu documento, contar sua história de vida. Os internos eram tratados como objeto. Às vezes, como dejeto. Encontrar alguém na situação do Bispo foi novo", lembra, hoje, Morais. Dois anos depois, lá estava ele tentando convencer o interno a deixá-lo levar parte de sua produção para uma exposição. Esse foi só o começo da relação do crítico com a criação de Bispo. Por mais de uma década, Morais mergulhou na obra de Bispo e nos rastros que ele deixou pelo Rio de Janeiro na tentativa de escrever sua biografia e de inscrever esse acervo na arte contemporânea brasileira.

Um pouco depois, em 1985, a Isto É mandou o jornalista José Castello e o fotógrafo Walter Firmo, que nunca tinham ouvido falar em Bispo do Rosário, à Colônia. A reportagem que fizeram foi mais um importante momento da apresentação do artista, e marcou profundamente a vida dos dois repórteres. Castello passou dois dias com Bispo. Firmo, um dos poucos a fotografá-lo, três. Algumas das imagens que ele fez naqueles dias de 1985 já figuraram em livros e exposições, mas pela primeira vez a totalidade do ensaio poderá ser conferida em livro. Walter Firmo: Um Olhar Sobre Bispo do Rosário será lançado no dia 14 de setembro, na abertura de exposição com essas mesmas imagens, na Caixa Cultural, no Rio de Janeiro, pela Nau Editora e pela Livre Galeria. A organização da obra é de Flavia Corpas, psicóloga que pesquisa para seu doutorado as articulações entre arte e loucura na vida e obra de Arthur Bispo do Rosário. A mostra poderá ser visitada até 10 de novembro.

É de Corpas também a organização de outro livro, Arte Além da Loucura, a ser lançado hoje em São Paulo, na Livraria da Vila (Alameda Lorena, 1.731) a partir das 18h30. No volume, estão os textos que o crítico que revelou Bispo do Rosário escreveu ao longo dos anos. Trata-se daquela tentativa de Morais de retratar o artista que duas décadas depois de morto seria destaque duas vezes na Bienal de Arte de Veneza e também na de São Paulo. Frederico Morais, que pesquisou o passado de Bispo, sobretudo em sua obra, nos apresenta uma figura que começou a vida como marinheiro, foi lutador de boxe, garimpeiro, funcionário da Light, empregado doméstico e que numa antevéspera de Natal, nos idos dos anos 1930, teve um surto psicótico que o levaria a sucessivas internações, ao chamado de uma voz para que representasse todas as coisas do mundo e à criação de uma das obras mais instigantes e interessantes da arte contemporânea.

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