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Inventar é poder

Jornalistas americanos tiveram um momento público de hesitação no começo do ano

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2017 | 02h00

A eloquência de uma capa ou manchete impressa ainda não encontrou substituto, um truísmo lembrado neste domingo quando mais de um milhão de cópias do New York Times circularam com um título sem precedentes. Admito que “sem precedentes” está perdendo o poder de choque neste ano de avessos. Mas a contracapa da seção de opinião do Times de 25 de junho não é candidata a embrulho de carne no dia seguinte, para lembrar uma expressão antiga sobre a vida fugaz das notícias. A página inteira, sob o título Trump’s Lies, foi dedicada a um recorde na história presidencial americana. O jornal compilou, de 21 de janeiro, dia seguinte à posse de Donald Trump, a 21 de junho, todas as mentiras que o presidente disse ao público. A média resultante foi de seis dias mentindo para cada dez de governo.

Se a expectativa de qualquer eleitor é ouvir políticos destroçando fatos em campanha, a pura quantidade e variedade das lorotas presidenciais é de tirar o fôlego. Os editorialistas do Times dizem que estabeleceram um “padrão conservador, deixando de fora declarações ambíguas” e se concentraram apenas no que podia ser provado como falso. Notaram também que o presidente mal consegue monitorar o que inventa e frequentemente desmente uma mentira com outra invencionice. 

Assim que acabaram de editar a lista, boom! Num tuíte, o presidente disse que não sabia de gravações de suas conversas com o ex-diretor do FBI, James Comey, que demitiu em maio. Três dias depois de despachar Comey, Trump havia tuitado que o ex-diretor devia torcer para não haver gravações das conversas que tiveram. Há quem acredite que é um caso clássico de intimidação de testemunha, já que Comey fora convocado para depor, sob juramento, no Comitê de Inteligência do Senado que investiga a interferência russa na eleição. Por que o tuíte de sexta-feira voltando atrás sobre as gravações? Por que seu advogado mandou. Sexta-feira era também o prazo dado pelo Congresso para o presidente entregar as gravações que não existiam. Se ele não confirmasse sua inexistência, ficaria sujeito a uma intimação judicial.

A rapidez com que as mendacidades vão sendo emitidas e repetidas por porta-vozes tem o efeito calculado de anestesiar o público. Ser jornalista hoje em Washington significa passar mais tempo citando pronunciamentos oficiais do governo para, em seguida, desmenti-los. É uma rotina exaustiva que aprofunda as trincheiras de dois campos adversários: os que confiam na mídia para atravessar a neblina e os que culpam jornalistas por repetir que a terra é redonda. 

Vale notar que, despreparados para o volume de ‘fabricações’, os jornalistas americanos tiveram um momento público de hesitação no começo do ano. Editores-chefes foram convocados para explicar porque algumas redações eram instruídas a não usar a palavra “mentira”, e sim eufemismos. A primeira vez que o Times usou “Trump mente” na manchete da capa, em janeiro, após a posse, o jornal virou manchete também.

Há um ramo nascente de análise política nos EUA, dedicado a examinar e prever o impacto das falsidades na instituição da presidência, na segurança nacional, na economia e em política externa. 

Mas, se deixamos de lado a gravidade variável de consequências que resulta de elocuções oficiais falsas, me ocorreu um motivo óbvio para mentiras de governantes autocratas, assistindo ao documentário de quatro partes composto de entrevistas que Oliver Stone fez com Vladimir Putin. Os russos, mesmo os que aprovam a cleptocracia instalada por Putin, não esperam que ele diga apenas a verdade. Há um pacto de tolerância à realidade fabricada por Putin, um pacto ao qual o cineasta americano se submeteu de bom grado. Quando Putin suprime a verdade diante do obsequioso diretor de Wall Street, ele está deixando claro um motivo. Mente porque pode. E sua impunidade é uma expressão do seu poder.

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