Inventando um jeito diferente de brincar

Em Álbum das Figurinhas, o Balangandança usa o corpo para falar, de modo poético, sobre vida, dor, crescimento e morte

HELENA KATZ, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2013 | 02h11

Uma ideia engata em outra, que engata em outra, e assim vai indo, mas não vira uma fileira a ser puxada, como acontece com os carrinhos de lata e de papelão que aparecem em cena. Elas se enovelam por dentro, por fora, por todos os lados porque não estão, mas são o corpo dos seis excelentes intérpretes da Balangandança Cia. Esse elenco afinado, formado por Dafne Michellepis,  Coré Valente, Alexandre Medeiros, Maristela Estrela, Alan Scherk e Clara Gouvêa, apresenta aos sábados, às 11 horas, o espetáculo Álbum das Figurinhas no Sesc Consolação até 25 de maio (exceto dia 18, quando não haverá espetáculo).

A beleza dessa obra está em como as ideias aparecem na forma de movimento. Para chegar a isso, foi necessário dedicar muito tempo ao projeto de inventar um jeito de fazer dança contemporânea para crianças. Fundado por Geórgia Lengos, sua diretora, o pioneiro Balangandança existe há 16 anos e, em junho, estreará outra produção: Ninhos, uma Performance para Grandes Pequenos.

A principal conquista deste Álbum das Figurinhas é a sabedoria dos seus seis artistas em fazer do lúdico um material de composição coreográfica. Mais do que isso, aliás, pois a mesma linha que vai costurando coreograficamente suas danças também as descostura porque não usa o jeito habitual de ligar os conteúdos em uma narrativa. Quando se pressente o que vai acontecer, a coisa evapora, mas não some, só muda de lugar, pois reaparece mais adiante. Embora as figurinhas pertençam a uma estrutura, como ela tem outra maneira de se organizar, o grupo nos faz crer que estão todas soltas.

A imagem disso está lá mesmo, no palco, exposta no móbile da cenografia, cuja leveza nunca traduz a complexidade da sua arquitetura. Um único resmungo vem porque móbile e bailarinos não se escutam. Com a muito bem concebida iluminação de Joyce Drummond, as trocas são primorosas quando cores e texturas vão aparecendo e desaparecendo. Como não se estabelece qualquer relação entre o móbile e os corpos, se fantasia como seria se o vento que os bailarinos sopram chegasse até ele, se os deslocamentos na velocidade da luz chegassem...

Podemos caraminholar diversas associações com o que se apresenta, mas talvez não seja o melhor caminho a seguir para lidar com essa coleção de figurinhas. Um exemplo só: o da avozinha de 95 anos que viveu uma vida muito bem vivida, cuja pele enrugou depois de ter sido esticada enquanto ela crescia e enquanto se esticava, produzia dor. Sem dúvida, uma maneira poética de falar para crianças sobre vida-crescimento-dor-morte com uma imagem ancorada no corpo. Mas talvez não sejam associações dessa natureza as que fazem com que a plateia infantil fique grudada no espetáculo e aceite os convites para participar em dois momentos distintos, lotando o palco e mostrando com o que lá fazem que estão acompanhando/entendendo tudo.

A companhia consegue produzir um atraente ambiente de presságio, no qual parece que tudo que está acontecendo apenas antecipa o seu próprio futuro. A qualidade da dança de cada um - uma sucessão de roçares, de esbarros e de montagens - não esquece de zelar pela precisão dos acabamentos, tem papel de destaque nessa construção. A trilha sonora editada por Kito Siqueira-Satélite Áudio das músicas compostas por ele, Coré Valente e o grupo se ajusta tão bem que vira a pele que estica e encolhe junto com o trabalho. E as escolhas cromáticas que Maíra Mesquita fez para o figurino rimam com o que vai acontecendo.

Neste Álbum das Figurinhas latejam aqueles veios subterrâneos que ligam todas as fases da vida. Na aparência, um pórtico para a infância, mas quem aceita o convite e o transpassa encontra um dado caindo, virado no sete, como disse Carlito Azevedo no seu livro Sublunar (2001).

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