Invenções

Fernando Pessoa e sua mesa num café de Lisboa, em que reunia seu plantel de heterônimos

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2017 | 02h00

Fernando Pessoa, como se sabe, não era um poeta português, era vários poetas portugueses. Escrevia sob outros nomes, e a cada poeta inventado, que chamava de heterônimo, dava uma biografia e um estilo diferente. O que pouca gente sabe é que, pelo menos uma vez por ano, Pessoa reservava uma mesa num café de Lisboa para reunir seu plantel, e servia bebidas e pastéis de Belém para todos – que ninguém via, ou só ele via. 

Os frequentadores do bar se espantavam com aquele homem numa grande mesa vazia que falava sozinho enquanto bebia e comia. Não podiam saber que Pessoa conversava com suas criaturas invisíveis, que comentavam a vida e os tempos, e muitas vezes trocavam insultos, pois o único traço comum aos heterônimos – Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares – era que um não suportava o trabalho do outro. Pessoa não tomava partido nas discussões, apenas recomendava tolerância e paz, enquanto comia todos os pastéis. 

Um dia, no meio de um desentendimento entre os heterônimos sobre o papel da poesia na política, aproximou-se da mesa um homem que Pessoa achou remotamente familiar. Talvez um colega de escola? O homem pediu para sentar-se. Pessoa disse que todas as cadeiras estavam ocupadas, e o homem pegou uma cadeira da mesa ao lado. Anunciou seu nome. Identificou-se como “um poeta menor” e disse que lamentava não ter sido convidado para aquela reunião.

– Mas você não é meu heterônimo – protestou Pessoa.

– Não – disse o homem. – Você é meu heterônimo. 

– O quê?!

– Eu inventei “Fernando Pessoa”, e vi minha criação tornar-se mais conhecida do que eu. “Pessoa” todos conhecem. É o maior poeta de Portugal. Eu, quem conhece?

Pessoa lembrou-se de onde vira aquela cara antes. Numa obscura antologia de poetas provincianos, ilustrando um poema horrível.

Foi Álvaro de Campos quem expressou a perplexidade do grupo, depois de alguns segundos de silêncio atônito diante daquela revelação.

– Quer dizer que nós somos invenções... de uma invenção?!

O homem explicou:

– Eu só inventei “Fernando Pessoa”. Ele inventou vocês por conta própria. Eu, pobre de mim, não teria a capacidade. Mal posso com um heterônimo, que não para de escrever. O que dirá de cinco.

Ricardo Reis virou-se para Pessoa, ou “Pessoa”, e protestou.

– E você, ó Pessoa. Não vai dizer nada? E essa confusão em que nos meteu?

– Eu só estava pensando – disse “Pessoa”, pegando o último pastel – que desta vez não vou ser eu a pagar a conta. 

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