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Inveja benigna

Bons motivos para ter inveja, não só literária, de Sabino e de Drummond

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2019 | 05h50

Praticamente incapaz de dar às minhas coisas - materiais ou não - aquele mínimo de ordem, tenho inveja de quem o faz, e mais ainda de quem, num passo adiante, cria sistema próprio de organização. Como certa senhora de minhas relações, muito querida, que ao morrer de morte repentina não legou sofrimento adicional a seus familiares. Não se foi, aliás, sem antes tomar um banho e perfumar-se, só não tendo tido tempo de polvilhar os pés com talco, cuidado a seu ver indispensável, ainda mais em dia como aquele, de verão. 

Além de instruções precisas, incluindo gestos de carinho para distribuição póstuma, a boa criatura deixou na gaveta do criado-mudo uns envelopes com combustível monetário suficiente para as primeiras, segundas e até terceiras providências. Não se esqueceu sequer da fotografia e dos dizeres do santinho a ser distribuído na missa de sétimo dia. Não me espantaria se num daqueles envelopes jazesse a nota fiscal de compra de um caixão, guardado na intimidade do quartinho dos fundos, sob uma lona para não assustar ninguém, à espera de quem o haveria de habitar. Não há exagero em dizer que, tivesse o Criador lhe concedido uns minutinhos mais, teria ela própria, para não dar trabalho aos outros, se acondicionado no ataúde, depois de acender os quatro círios fúnebres, e então cruzado as mãos no peito. 

Não aspiro a tanto, quem sou eu. A mim me bastaria a manha básica de saber juntar coisa com coisa. A barafunda, por exemplo, das estantes do escritório (já nem falo das pilhas pelo chão), que ultimamente tem me levado a comprar livro em duplicata, para daí a pouco encontrar o que já dava por sumido, tudo isso, enfim, tem a ver, para começo de conversa, com a incapacidade de decidir como organizar essa montanha de papel impresso, se por gênero literário ou nacionalidade dos autores.

O panorama é tal que começo a considerar com simpatia aquela faxineira que alguns anos atrás, diante da evidência de que o patrão não dava conta de domar o caos, tomou a iniciativa de organizar os livros a partir do critério cromático. Quando voltei de viagem, ela, triunfante, sequiosa por um elogio, fez questão de me conduzir ao escritório e exibir estantes onde lombadas não se misturavam com outras que não fossem da mesma cor. O arranjo obedecia também ao critério estatura, para evitar que um volume de bolso passasse vergonha ao lado de um vizinho muito mais alentado, ainda que tivessem ambos em comum o fato de serem azuis. Não sei como não dei à moça, no ato, o famoso bilhete dessa mesma cor.

*

Até não me faltam impulsos heroicos do tipo “é hoje!”, em geral num desses fins de semana em que o mau tempo nos convence a não sair à rua. Decidido, esqueço por ora a livralhada e vou exumando caixas dos armários, todas delas identificadas com hidrográfica e a invariável indicação: “Papéis a organizar”. Umas três ou quatro, de bom tamanho, estão repletas desse anacronismo que se chama carta, e para nelas mergulhar me muno de máscaras compradas em farmácia. É hoje! 

Pena que o perigo não esteja apenas nas nuvens de pó acumulado. O verdadeiro problema reside não nos ácaros, mas em quem permitiu que se avolumasse praticamente tudo o que lhe foi trazendo o correio desde profundas entranhas do século 20. Antes me limitasse eu, nesses meus repentes organizatórios, a ler nomes de missivistas para mim hoje tão apagados quanto a esmaecida caligrafia no envelope, e em seguida conjugar o verbo sob medida para a circunstância: descartar. Quando dou por mim, já encerrei a arrumação sem tê-la iniciado, e o corpo buscou assento para a leitura da prosa epistolar bem mais do que cinquentenária da namoradinha dos meus 15 anos. Lá estou eu, adolescente, de volta ao Grande Hotel de Araxá, fervilhante de hormônios, sem saber se já se acham reunidas as condições para dar o bote na mão da carioquinha de franja ao lado no sofá. A mão, agora de um senhor para lá de maduro, volta a hesitar, antes de devolver à caixa as duas ou três cartas da Graziela, até que sobrevenha um novo surto de arrumação.

Quanto ao papelório que não cessa de crescer sobre a mesa de trabalho, cujo tampo não se vê faz tempo, às vezes penso, com o risco de vir a pagar pela língua, que o que me falta é um bom incêndio. Bate em mim, outra vez, a invejosa admiração que sinto por Fernando Sabino, capaz de achar em 40 segundos qualquer papelucho nas gavetas de seu quarto e sala da rua Canning, 22, fronteira de Copacabana com Ipanema. 

Inveja também, já nem digo literária, de Carlos Drummond de Andrade, a poucas quadras dali, na Conselheiro Lafaiete, 60, cujo esmero o levava a transcrever em cadernetas De Luxe, de espiral, as dedicatórias versificadas que distribuía, rotina da qual haveria de resultar uma coletânea de fac-símiles, Versos de Circunstância, organizada três décadas depois de sua morte pelo poeta Eucanaã Ferraz e lindamente editada pelo Instituto Moreira Salles.

Quando entrevistei Drummond para a IstoÉ, em abril de 1985, pedi que autografasse meu exemplar de sua obra na edição da Nova Aguilar - e confesso que por um segundo sucumbi à pretensiosa ilusão de que o poeta estivesse improvisando uma quadrinha sob medida para o repórter. Como me restasse aquela mínima noção das coisas, tratei de quietar o facho da apoteose mental. Limitei-me a admirar a capacidade do autor octogenário de guardar de cor uns versos, escritos, soube depois, quase 20 anos antes, mais exatamente em 11 de outubro de 1966, por certo para alguém de mais merecimento, e com os quais vim a topar na página 251 da citada coletânea. 

Em tempos mais recentes, numa visita a outro admirador do poeta, vi o anfitrião chegar às lágrimas ao me contar que Carlos Drummond escreveu para ele uma dedicatória, mais do que isso, em versos!, no seu volume da Nova Aguilar, que fez questão de ir buscar lá dentro, igualzinho ao meu, para que eu pudesse ler uma quadrinha, adivinha qual. 

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