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Inveja

Assim que admiti ter inveja do Porchat passei a admirá-lo. Ato contínuo

Daniel Martins de Barros, O Estado de S. Paulo

10 de dezembro de 2020 | 03h00

Eu não gostava do Fábio Porchat. Bastava alguém elogiá-lo para eu dizer que não o achava tudo aquilo. Não era um sentimento intelectualizado – estava mais para um certo desdém. Conforme fui sendo exposto ao seu trabalho, contudo, finalmente entendi qual era o problema. Inveja.

A inveja é um sentimento nem um pouco nobre, que ninguém confessa mas que todo mundo sente. Enquanto ela está escondida, no entanto, antes que consigamos admiti-la para nós mesmos, ela opera esse tipo de distorção na forma de percebermos as coisas. Diminuímos as conquistas alheias, condenamos suas realizações, questionamos seus métodos, tudo para não admitir que estamos com inveja. Mal sabemos que essa confissão pode ser libertadora. Sim, porque no fundo a inveja é uma espécie de elogio. Um elogio inconformado, porque reconhece no outro de algo bom, valoroso, digno, que não reconhece em nós mesmos.

A tortura desse sentimento é que ele aponta para algo que, embora não tenhamos, sentimos que poderíamos ter. Não consigo invejar um herdeiro milionário ou um atleta de elite. Essas pessoas estão num lugar da existência praticamente oposto ao meu. Não dá para me imaginar alcançando nem uma fração dos que eles têm. Então meu cérebro não se põe a invejar tanto dinheiro ou tanto talento. Já quando algo que não tenho me parece que seria possível, quando sinto que “poderia ser eu” (mas não sou), nesse terreno é que brota a inveja.

Existe algo de profundamente preguiçoso com esse sentimento – e talvez por isso as pessoas se envergonhem tanto de admiti-lo. Porque quando invejamos algo estamos dizendo 1) que aquilo é desejável; 2) que gostaríamos de ter; 3) que poderíamos ter; mas 4) que não teremos. Por quê? Porque sabemos que não vamos nos esforçar para conseguir. Mude esse último ponto e o sentimento deixa de ser inveja e vira cobiça.

Assim que admiti ter inveja do Porchat passei a admirá-lo. Ato contínuo. Reconheci que seu talento para se comunicar e a agudeza de suas ideias o levaram a um sucesso que em minha fantasia eu poderia ter se pagasse o preço que ele pagou – estudado tudo o que estudou, trabalhado como trabalhou. Fazendo essa contabilidade vi que era um preço que eu não gostaria de pagar; percebi finalmente que eu não poderia escolher colocar energia em outras coisas e chegar no mesmo lugar que ele. Foi assim que me libertei da inveja e a transformei em admiração. Explicando em retrospecto parece fácil, mas tente fazer sua jornada para ver o que é bom.

Contei essa história toda para falar do único tema relevante da semana: as vacinas contra covid-19. Vai dizer que você não está com inveja dos ingleses, americanos, chilenos, argentinos, todos à nossa frente na sua produção ou negociação para comprá-las? É algo bom, que não temos, que gostaríamos muito de ter, mas que não fizemos nem faremos nada para tanto. Como nação nós não investimos em educação, não valorizamos cientistas, não damos importância a mortes no atacado. Não queremos pagar o preço. Ou seja, não conseguimos sequer chegar ao nível de cobiçar as vacinas. A nós, resta-nos a inveja.

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’

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