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Inveja

Hoje pela manhã, nessas corridas vindas a São Paulo, passei de carro em frente ao Parque do Ibirapuera e fui tomada por um triste e profundo sentimento de inveja

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2016 | 03h00

Hoje pela manhã, nessas corridas vindas a São Paulo, passei de carro em frente ao Parque do Ibirapuera e fui tomada por um triste e profundo sentimento de inveja. Explico-me. Não invejei as pessoas que terminavam respeitavelmente suas corridas diárias. Não invejei os moradores dos prédios imponentes da Vila Nova Conceição. Não invejei as árvores, sólidas, serenas e protegidas.

Invejei uma senhora. Uma senhora que vejo há anos nas redondezas do parque. Ela é moradora de rua e tem evidentes distúrbios psiquiátricos. Normalmente, vejo-a na calçada da República do Líbano, sentada no chão, cercadas de sacolas, aflitivamente próxima ao meio-fio. Em todas as outras vezes em que a vi, fui tomada pelo estranho sentimento de pena, que tem muito pouco de generoso e muito mais de egoísta frente às cenas que nos incomodam.

Desta vez não. Parada no trânsito, nesse dia 9 no qual escrevo, eu estava desolada. Fui despertada por dezenas de mensagens aflitas no meu celular, por conta da eleição de Donald Trump. Logo eu, logo eu que tenho tanta fé! Logo eu, que dedico dezenas de horas semanais ao direito internacional, logo eu, que ainda acho que o mundo anda para frente... Desolada. Descrente. Cansada.

No carro, eu pensava se ainda valia a pena ir à PUC pesquisar na biblioteca. Foi quando olhei para ela, que tinha um balde de água no qual molhava os braços e a nuca naquela manhã abafada. Observei-a, tão alheia a todos esses equívocos. Sem saber que um homem tão perigoso quanto inconsequente passou a liderar a maior potência do mundo, sem saber nas mãos de quem nosso país foi parar, sem saber que cinco meninos negros como ela foram encontrados mortos em uma cova rasa, na semana passada.

Olhei para ela. Seus olhos não carregavam nem angústia nem descrença. Seus olhos não carregavam nada. Tive vontade de descer do carro, arrancar meus sapatos de salto, sentar ao seu lado e mergulhar naquele balde e naquele universo paralelo no qual ela vive. Eu queria perguntar “aí onde você vive é melhor, né? Aí não tem discurso de ódio, né? Não tem menino de 16 anos, cadeirante, de fralda, morto com o corpo apodrecendo, né? Será que eu posso entrar um pouquinho?”.

Mas o trânsito andou. Eu não desci e ela ficou para trás. Deixei o dia passar e me acalmei por saber que, das duas uma: ou minha fé será restaurada ou eu termino louca como ela. Qualquer uma das opções é melhor do que a sensação que carrego agora.

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