Invasão baiana

Estado marca presença em Curitiba com duas obras na grade oficial e mostra selecionada por Wagner Moura

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES CURITIBA, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2013 | 02h10

Coerente com sua pretensão de ser uma "vitrine" do teatro nacional, o Festival de Curitiba costuma refletir, em sua programação, nossas acentuadas diferenças regionais. Tradicionalmente, o que se vê por aqui é uma preponderância de espetáculos do Sul e Sudeste, com uma ou outra abertura para criações "fora do eixo".

Nesta edição, porém, parece algo distinto o panorama. Na grade oficial, são três os representantes do Nordeste. Já no Fringe - programação paralela do festival - uma seleta de sete espetáculos da Bahia movimenta a cidade.

A curadoria da mostra baiana é de Wagner Moura. A intenção da iniciativa? Expandir as fronteiras do teatro que se faz no Estado e garantir sua visibilidade. "Não adianta investirmos apenas na produção e não escoarmos essas criações", justifica Maria Marighella, coordenadora de Teatro da Funceb - Fundação Cultural da Bahia.

A partir das criações disponíveis hoje no Estado, o ator selecionou não apenas as que julgava mais significativas. Buscou reunir representantes de diferentes vertentes da produção atual: uma amostra da diversidade de estéticas e linguagens.

Companhia consagrada, a Bando de Teatro Olodum apresenta Áfricas, sua primeira criação infanto-juvenil. "É uma tentativa de traduzir para um outro público toda a sua pesquisa sobre uma estética afro-baiana, sobre a ancestralidade brasileira", define Maria Marighella. Já de Alagoinhas, cidade do Recôncavo Baiano, vem Sire Obá, que também trata da tradição do candomblé, celebra os orixás. "Mas tenta fazer isso de uma maneira diferente do Bando de Olodum", considera Maria. "Inserindo quebras para uma linguagem mais contemporânea."

As questões da "baianidade" são um eixo da produção cultural do Estado. Mas não o único. A mostra contempla representantes do teatro físico - caso de Seu Bonfim, título apoiado no trabalho corporal do intérprete e diretor Fabio Vidal. Há ainda criações focadas essencialmente no texto, como Sargento Getúlio - adaptação da obra de João Ubaldo Ribeiro. E experimentos que tendem ao gênero fantástico, como Luz Negra. Explicitamente influenciada pelo teatro de Samuel Beckett, a peça traz duas cabeças decepadas refletindo sobre dilemas existenciais.

Além da mostra de espetáculos, a Bahia também aproveitou o contexto do festival para lançar um kit de difusão do seu teatro. O livro traz informações em português, inglês e espanhol sobre 28 montagens. E busca promover "negócios." A iniciativa assemelha-se àquela de outros grandes eventos congêneres do mundo. Em Bogotá - onde acontece o maior festival das Américas - é assim que se faz a promoção das criações locais para curadores e produtores internacionais. "O produto baiano é sempre muito bem recebido, saudado pela sua criatividade. O que é difícil é consolidar esse mercado. Nossa intenção não era apenas trazer espetáculos, mas fazer daqui uma porta para outros lugares, criar uma rede de relacionamentos e gerar negócios", considera Maria Marighella. "Tudo isso sem afetar a presença de montagens baianas na grade oficial do festival."

Novo olhar. A presença nordestina na programação principal aumentou e pôde ser escolhida por quem conhece de perto essas produções. Este ano, os curadores selecionaram os títulos com a assessoria de Dane de Jade, idealizadora da Mostra Sesc Cariri. São dois os espetáculos baianos na mostra oficial: Breve é uma produção do grupo Teatro da Queda. E Diário de Genet, que faz sua estreia nacional em Curitiba, tem direção de Djalma Thüerler e texto de Dib Carneiro Neto.

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