Intrigante desafio de Kiarostami

Cinéfilo que se preze deve-se lembrar das lágrimas de Juliette Binoche por Jafar Panahi, preso em Teerã. Foi durante a coletiva de Cópia Fiel, em Cannes, em maio. Juliette terminou recebendo o prêmio de melhor atriz do festival, e não sem polêmica. Como sua imagem ornamentava o cartaz do evento, muita gente - críticos e jornalistas de todo o mundo, mas principalmente da França - estranhou que ela tivesse um filme em competição e, mais ainda, que o júri de Tim Burton lhe outorgasse o troféu. Gérard Depardieu chegou a alegar falta de ética, dizendo que ela não merecia o prêmio.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2010 | 00h00

Tudo isso pode ser lembrado a propósito do filme que passa hoje na Mostra. Vale acrescentar que Cópia Fiel foi proibido na República Islâmica do Irã, sob a alegação de que o vestido que Juliette usa infringe seja lá que lei do comportamento religioso, mas pouca gente duvida de que, na realidade, foi a atitude política - o apoio a Panahi - que levou à represália contra a atriz e seu diretor, Abbas Kiarostami.

Numa entrevista ao Estado, quando o filme passou no Festival do Rio, Juliette reafirmou que, mais do que o papel, é sempre o desejo de filmar com determinados artistas que pauta suas escolhas. Ela queria (muito) filmar com Kiarostami. A "história" do filme nasceu de um relato que ele lhe fez em Teerã, uma trama que foi desenvolvendo como um novelo, deixando Juliette interessada - para, no final, confessar que tudo era invenção.

No filme, Juliette é uma galerista que encontra escritor. Ele acaba de publicar um livro que defende a importância das réplicas no mundo da arte (e na vida em geral). Ela contesta certos aspectos do livro, mas se oferece para ser sua cicerone numa viagem pela Toscana. Não demora muito e estão agindo como um casal - unidos há 15 anos. O que é falso, o que é verdadeiro? Kiarostami filma bem mais, a Toscana é deslumbrante, como Juliette. Entra em cena Jean-Claude Carrière (o próprio). É uma viagem fascinante. Original ou cópia, o que importa é nossa percepção, o olhar que projetamos sobre o do autor. Intrigante.

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