Intimismo dá o tom de 'Tanta Água'

Filme das cineastas uruguaias Ana Guevara e Leticia Romero pauta-se pela capacidade de observação e delicadeza

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2013 | 02h28

Repetidas vezes diretores uruguaios tentaram explicar como um país de economia tão pequena e que produz pouquíssimos filmes pode fazer com que essas raras aventuras cinematográficas sejam tão boas. O Festival de Gramado, até pela proximidade geográfica, tem sido palco de sucessivos triunfos do cinema uruguaio no País. Mas o Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo também tem se rendido à excelência de certos filmes do Uruguai. Como esse Tanta Água, que estreia hoje, depois de ser premiado no evento do Memorial da América Latina, em julho.

É outro filme pequeno - claro -, mas cuja modéstia de produção vem compensada pela riqueza de observação. A história é rarefeita, sem lances intensos. Parece um filme sobre nada, é sobre tudo. Um pai e um casal de filhos. As crianças - a filha é pré-adolescente, está naquelas fase em que os hormônios explodem - vivem com a mãe. A comunicação é difícil, mas o pai tenta. Logo no começo, ele apanha o casal de filhos para uma curta temporada de férias, mas o tempo não ajuda. Chove muito e a piscina da estação de águas é interditada porque há perigo de raios. O pai também pediu um apartamento mais modesto, sem televisão. O trio aborrece-se - se aburre, como dizem os castelhanos.

Tanta Água é obra de duas diretoras, Ana Guevara e Leticia Jorge Romero (leia entrevista com a primeira ao lado). Pode até ser que não se trate de uma influência direta, mas com certeza ambas tiveram tempo de ver e absorver o cinema da argentina Lucrecia Martel. A piscina interditada, o despertar da sexualidade da adolescência, as difíceis relações familiares, tudo isso lembra demais a autora de O Pântano e La Niña Santa para não ser levado em conta. Lucrecia trabalha mais no registro do simbólico, do metafórico. E, como 'autora', sua linguagem não é naturalista, mais que realista, como a de Ana e Leticia.

A garota, a princípio isolada, arranja uma amiga com quem compartilhar os sonhos - e um cigarro. Mas a amizade complica-se porque ambas se interessam por um garoto, e ele prefere a outra, sexualmente mais ativa. Nossa protagonista tenta afastar a rival - é o que mais se aproxima de um 'plot' em Tanta Água. Não dá muito certo, mas é o que permite às diretoras encarar um tema que cala fundo em qualquer plateia, mas pode ter um efeito devastador sobre os jovens, ainda imaturos emocionalmente - a quebra de confiança, a traição. Paradoxalmente, mas nem tanto, é o que a torna vulnerável e a aproxima do que possui como 'família'.

Ana Guevara é roteirista e montadora, Letícia Romero também é roteirista. Mas como não pensam com a cabeça de Hollywood, o roteiro delas se constrói por meio de detalhes, e minúcias, mais que ação. Sem ser lento, muito menos chato, o filme toma seu tempo, que é o das experiências do trio, e da garota. Ela se isola debaixo d'água, na piscina, uma cena emblemática de A Primeira Noite de Um Homem, que no filme de Mike Nichols era embalada pela música (The Sound of Silence, de Simon e Garfunkel). E que talentosa atriz é Malú Chouza. É a alma de Tanta Água.

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