"Intimidade Indecente" reaproxima Leilah e Irene

O teatro foi o ponto de partida para uma sólida amizade de 25 anos entre a atriz Irene Ravache e a dramaturga Leilah Assumpção. Amizade iniciada mais precisamente com os ensaios da peça Roda Cor de Roda, escrita por Leilah, na qual Irene interpretava a fiel Amélia, uma dona de casa que, ao descobrir a traição do marido, transformava-se na prostituta Batalha. Sob a irreverente direção de Antonio Abujamra, contracenando com Lilian Lemmertz, Irene estreou sua Amélia em 1976, escandalizando uma grande parcela do público teatral.Apesar da estreita convivência fora do palco, só agora as duas decidiram repetir a bem sucedida parceria artística. Irene vai ser a protagonista da mais recente criação de Leilah, a peça Intimidade Indecente, que mostra flashes da vida de um casal ao longo de 40 anos e tem estréia prevista para o próximo ano em São Paulo. "A gente estava se devendo isso", afirma Irene.Embora as duas ainda não tenham escolhido elenco (um ator) e diretor, a produção já está garantida. "A Irene costuma produzir suas peças e meu marido as minhas", diz Leilah. "Desta vez eles serão parceiros na produção do espetáculo." Um novo escândalo? "Intimidade Indecente pode escandalizar quem tiver problemas com o bom humor ou não estiver preparado para ser feliz", avisa Irene. "Em Roda eu simplesmente acabava com a instituição da família e com o código civil; foi um impacto", relembra Leilah. Naquela época, o bom era ser iconoclasta; hoje a grande revolução é construir, é acreditar no amor", argumenta.Uma mudança de pensamento aparentemente radical, embora não repentina, nessa autora que vem falando da mulher desde a década de 60. Foi naquela época que a ex-modelo Leilah, ainda conhecida como manequim do estilista Denner, surpreendeu a crítica como autora de Fala Baixo Senão Eu Grito, sua primeira peça encenada, ainda que já tivesse escrito Vejo um Vulto na Janela, Me Acuda que Eu Sou Donzela."A Leilah é uma dessas autoras que a gente pode dizer que tem uma obra. Ela não escreve apenas mais um texto. Cada peça vem como conseqüência da outra, há sempre um ser humano sendo questionado e um olhar sobre o que está acontecendo no País. E existe uma coerência em sua criação; ela jamais escreveu por exemplo, uma peça machista", afirma Irene. "O mesmo ocorre na carreira dela, que nunca escolheu um papel apenas para exibir seu talento, sem se importar, por exemplo, se estaria sendo favorável ou não ao Maluf", devolve Leilah.A verdade é que o tema da condição feminina perpassa todas as peças da autora, desde Fala Baixo até O Momento de Mariana Martins, encenada ano passado. Um tema fértil. Afinal, nos últimos 30 anos talvez nenhuma outra transformação tenha sido mais profunda do que a do papel da mulher na sociedade ocidental.Intimidade Indecente aborda a relação afetiva de um casal de brasileiros de classe média, profissionais liberais. "Roberta (Irene) é uma mulher independente, que conseguiu conquistar também sua autonomia", diz Leilah. E faz a distinção. "Independência é econômica, autonomia e psicológica, é conseguir viver sem homem." Mas que ninguém se engane. A autora não está pregando a solidão e o individualismo como fórmulas de bem viver. Segundo ela, saber viver sozinho é uma obrigação, uma conquista. Ter um companheiro é um presente de Deus, torna a vida mais agradável."Aquela relação afetiva como nossas mães nos ensinaram, aquele casamento que questionávamos há 30 anos, faliu, acabou", argumenta. "Mas, por outro lado, isso de casar e ter filhos como quem "fica", como se fossem todos eternos adolescentes é de uma irresponsabilidade abissal e provoca uma imensa carência afetiva." E é essa indigência afetiva que a autora questiona em Intimidade Indecente."Na década de 60, quando os jovens deixavam o cabelo crescer, usavam roupas floridas e pintavam o rosto com flores a idéia era ser mais livre", lembra Irene. "A moda reflete comportamento", argumenta, para em seguida ressaltar que livrar-se do terno e pregar o amor livre não era igual a sair transando atabalhoadamente. E muito menos sinônimo de incentivar uma criança vestida com botas e saias curtas a dançar na boquinha da garrafa. "Desde o momento em que as academias de ginástica começaram a ficar abarrotadas, desde o momento em que flacidez virou sinômino de desgraça, as pessoas começaram a ficar flácidas de idéias também", observa Irene.As jovens artistas iconoclastas da década de 60 estavam longe de imaginar que a idéia do amor livre - difundida em oposição à rígida repressão sexual que violentava principalmente as mulheres - iria desembocar no comportamento permissivo das garotas de classe média que fazem programa para comprar carro do ano. Irene e Leilah ressaltam que a idéia era mudar o comportamento, lutar por mais liberdade, nada a ver com a vulgaridade, o sucesso fácil e o imediatismo que permeia grande parte das relações no mundo de hoje."Talvez o texto seja considerado até conservador, porque é otimista quanto ao amor", diz Leilah. "A peça instiga a partir do título", comenta Irene. Uma referência àquela convivência quase promíscua do casamento. "Entre casais existe uma intimidade que às vezes beira a indecência, mas eu acho vital a existência dessa intimidade", diz Irene. "E ela nada tem a ver com permissividade; sendo bem grosseira, um casal pode experimentar todas as posições do kama sutra e não ter intimidade.""A peça fala sobre um casal que achou seu jeito de ser feliz", diz Leilah. Mas avisa que a solução não é transferível, ou seja, a peça não fornece uma receita de felicidade. "Eu tenho um casamento de mais de 20 anos e a Irene também", comenta Leilah. "Tanto o dela como o meu permanecem porque achamos fórmulas particulares de convivência, que só a nós interessa."Reconhecida pelos seus recortes da alma feminina, Leilah ressalta como principal novidade de Intimidade Indecente o aparecimento de um homem novo. E qual seria o perfil desse "novo" homem? "Ele tenta compreender a mulher e não tem medo de mostrar sua fragilidade."Quando Irene leu o texto de Leilah, já tinha planejado reestrear o monólogo Eu me Lembro, de Fernando Moreira Salles e Geraldo Mayrink, no início do ano, no Rio. O espetáculo entrou em cartaz em 1994, mas as apresentações se restringiram a São Paulo. "Era um texto delicioso, construído a partir da memória dos dois, mas havia muitas referências à cidade do Rio e na época, achei um pecado não mostrar ao público carioca. Eu estava devendo isso à minha cidade."

Agencia Estado,

15 de novembro de 2000 | 15h29

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