Imagem Fábio Porchat
Colunista
Fábio Porchat
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Intimidade

A internet trouxe uma proximidade do fã com seu ídolo que nunca existiu. Hoje em dia, você consegue falar pelo twitter com o apresentador do Jornal Nacional. Ele pergunta qual gravata deve usar e a escolhe segundo a decisão da maioria dos seus seguidores. Vamos combinar que, há 20 anos, você conseguir trocar uma palavra com o Cid Moreira não era exatamente fácil. O presidente dos EUA fala com pessoas pela internet (mesmo que não seja ele mesmo a responder, alguém o faz em seu nome).

Fábio Porchat, O Estado de S.Paulo

29 Março 2015 | 02h06

O celular que tira foto também foi uma tecnologia que aproximou as pessoas do famoso. Em qualquer lugar, a qualquer hora, qualquer pessoa pode tirar uma foto com quem bem entender. O autógrafo foi substituído pela selfie. Mas, como tudo na vida, isso também tem o seu lado ruim. Porque o fã, que agora se sente mais íntimo do artista, se sente também com mais liberdade no trato de um modo geral. E, não importa a situação, acha que todos têm a obrigação de tirar aquela foto, independentemente de qualquer coisa. E se, por qualquer motivo, isso não acontecer, a culpa é sempre do artista metido que não tá nem aí pras pessoas que gostam dele. É complicado julgar, porque cada caso é um caso, e cada pessoa é cada pessoa, mas, outro dia, uma moça veio tirar uma foto comigo no aeroporto. Tirei a foto e ela comentou: 'Que bom que você tira foto, porque tem muita gente aí que não tira. Eu perguntei de curiosidade quem e ela não soube me responder. Claramente, ela estava generalizando um tipo de pensamento, mas um pensamento contra o artista. Quase como uma espécie de terrorismo: se não tirar foto comigo, vou espalhar por aí que você é escroto. E as pessoas gostam sempre de espalhar boatos negativos. Nunca vi ninguém falando pra mim: puxa, o fulano é ótimo, sempre muito solícito. Os comentários são sempre: sabe aquele fulano? Um babaca, passou outro dia por mim e nem cumprimentou.

Outro dia, eu estava dormindo no avião, com direito a máscara e encosto pra cabeça, e uma moça me acordou para eu tirar uma foto. Disse que estava dormindo e se poderia ser quando o avião pousasse, até porque ela, provavelmente, não ia querer uma foto minha com remela e bafo. Ela bufou e voltou pro lugar. No fim, não veio tirar a tal foto. Com toda certeza, virei um escroto pra sua roda de amigos.

Agora, as pessoas me pedem pra gravar vídeos pelo celular para elas mandarem pra galera. E a mais recente invenção é alguém descobrir o número de telefone e passar pros amigos. Recebo umas dez ligações por dia dessas pessoas. Meu WhatsApp é um inferno. Não respondo e apago tudo. E sabe o que é o pior? As pessoas ficam bravas e me xingam. 'Seu arrogante, não vai me responder não, idiota? Parei de te admirar.' A pessoa pega o meu telefone pessoal, invade a minha privacidade e eu é que sou o babaca? Acho ótima a proximidade com o fã, só acho que alguns limites precisam ser respeitados. Quer tirar foto, tira, mas não me pede pra sentar no seu colo e fazer cavalinho pocotó. Combinado?

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.