Intérprete deixa que a força da música se imponha, sem exagero

Há dois detalhes da biografia de Till Fellner que chamam a atenção: Johann Sebastian Bach e Alfred Brendel. Foi graças ao primeiro que ele apareceu internacionalmente em 2004 com uma sensacional leitura do primeiro livro do Cravo Bem Temperado. Sensacional não no sentido de polêmico. Mas, ao contrário, tratava-se de uma leitura serena e tranquila: Fellner parecia nos levar pela mão para juntos passearmos pelo incrível universo do contraponto bachiano. De Alfred Brendel, com quem estudou, ele consolidou um estilo interpretativo peculiar, que deliberadamente evita a subjetividade excessiva no toque.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

Em suma, quem o ouve fica com a impressão de que ele introjeta de tal modo a obra musical que interpreta, a ponto de só ouvirmos a obra, em estado imaculado. Sei que estes elogios podem parecer excessivos. Mas em disco é assim que soa. E não só nas celebradas gravações de Bach (depois do Cravo, ele gravou as invenções e sinfonias e uma suíte francesa pela ECM em 2009). Paralelamente, tem tocado bastante as sonatas, mas ainda não as gravou. Em 2010 a mesma ECM lançou um CD precioso, onde ele interpreta o quarto e quinto concertos de Beethoven, ao lado da Sinfônica de Montreal, regida por Kent Nagano.

Costumo, em meu dia a dia, ouvir primeiro o CD algumas vezes, ir de vez em quando à partitura. E só depois que formei opinião é que passo à leitura do texto do folheto interno. Na maioria dos casos é perda de tempo, porque os comentários repetem-se invariavelmente, veiculando as mesmas batidas informações - ainda mais num repertório destes. Mas neste CD o texto é do crítico inglês Paul Griffiths. Ele não costuma repetir platitudes. E simplesmente mata a charada, dá uma chave dupla, da gravação e da obra, ao afirmar que nestes dois concertos Beethoven, além de promover um diálogo entre piano e orquestra (já sabíamos disso), mostra também um ouvindo o outro. E alerta que nós, ouvintes, devemos prestar atenção e perceber estas "audições" internas da obra.

É neste sentido que a gravação é antológica. Fellner sabe ouvir; e Nagano conduz a orquestra canadense como se ela fosse um imenso organismo único à espreita do piano. A articulação e a transparência do toque de Fellner favorecem a clareza desta conversa franca e fértil do instrumento com a orquestra. Para mim, aliás, é no quarto concerto que está a performance mais especial deste disco. Houve críticos que puseram reparos justamente à articulação e ausência de poesia no piano de Fellner no andante. Pois é justamente esta recusa ao excesso que faz a beleza da interpretação. De modo bem aparentado a Brendel, Fellner deixa que a força da música de Beethoven se imponha, sem acentuá-la desnecessariamente.

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