Intérprete cria joias a partir da aspereza da vida

Charles Bradley traz, em 'Victim of Love', suas idealizações românticas do mundo

Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2013 | 02h11

A faixa-título de Victim of Love, uma balada enfeixada em um coral gospel, principia com Charles Bradley acompanhado minimamente apenas de um violão. A canção nos oferece a voz bruta de Bradley sem filtro, como se fosse para o ouvinte ter uma ideia da força da natureza que terá à sua disposição. Logo a seguir, em Love Bug Blues, sob uma malha viária de metais, baixo e órgão, fica evidente que Bradley é um elo perdido - como alguém que tivesse sido exposto a uma radiação de R&B por 60 anos e de repente começasse a soltar fagulhas daquilo.

Depois de um álbum de estreia em que transmitiu sua fúria e independência, Bradley traz, em Victim of Love (Daptone/Deck Discs), suas idealizações românticas do mundo. Strictly Reserved for You é super-Al Green, um passeio melancólico e ao mesmo tempo afirmativo pela glorificação dos sentimentos.

Para dançar, You Put the Flame on It, com um tempero Curtis Mayfield, não tem rival nos discos de R&B da atualidade. Bradley tem a manha do ritmo, da pista, e não oferece nada de mão beijada. Mas nesse disco dá mais ênfase ao gospel, às oferendas. Crying in the Chapel é um hino de coração partido. Para finalizar, uma balada memorável: Through the Storm, que começa com trovoadas e conduz ao arco-íris da alma generosa do soulman. Hurricane é seu tributo a James Brown, à rendição de toda a soul music àquela introdução milenar de It's a Man's World.

Uma única faixa instrumental no meio de todas as vocais, Dusty Blue, é diretamente descolada de uma costela de Green Onions, de Booker T. Trata-se de um capricho exibicionista do produtor Thomas Brenneck, um dos homens-chave por trás da gravadora Daptone.

Bradley é o oposto de outro portento da soul music recentemente redescoberto, Bobby Womack. Enquanto Bradley transforma em joias a aspereza de uma vida na rua, Womack celebra o refinamento com um banho de modernidade e dandismo. Ambos são fundamentais, embora diversos. E, nesse álbum, há um momento em que as duas pontas se unem, que é na faixa Let Love Stand a Chance. O Carbono 14 e o Diamante.

CRÍTICA: ÓTIMO

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