Wilton Junior/AE
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Interpretando a alma da América Latina

Os Redentores, livro de Enrique Krauze, ajuda a conhecer melhor a cultura e o universo político da nossa região

Paul Berman, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2011 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

Enrique Krauze é um conhecido historiador mexicano. Também é documentarista e apresentador de TV famoso por sua melíflua voz de baixo, um editor de livros decorativos elegantes e um operador ardiloso nas trevas superiores da política mexicana. É ainda editor de uma caprichada revista erudita chamada Letras Libres. Há recantos no universo de fala espanhola em que ele é onipresente, e até alguns recantos no universo de fala inglesa nos quais sua assinatura é presença constante. Venho acompanhando seu trabalho há décadas. Assino sua revista. Ocasionalmente, colaboro com ela. Ele sempre me pareceu um observador político agudo e judicioso, mundana e instintivamente liberal. Ocorre-me agora, porém, que ele também se marca por um dom raro e atraente para observar as várias maneiras que, sob o sol brilhante da imaginação, o reino da política e o da literatura por vezes se fundem.

Seu livro Os Redentores: Ideia e Poder na América Latina é, na sua descrição, "uma história das ideias políticas na América Latina durante o fim do século 19 e do século 20". Emerson disse que "toda história é biografia", e Krauze, de uma maneira emersoniana, compilou sua história escrevendo retratos biográficos de pessoas representativas, começando por José Martí, o poeta e jornalista cubano. Krauze considera Martí o "primeiro escritor moderno" da América Latina em parte em bases estritamente literárias. Mas Martí foi também o primeiro grande escritor a pôr o dedo no preciso tópico que ocupou a imaginação latino-americana desde então: a questão de como encontrar um equilíbrio entre a América de fala inglesa, do norte, e a outra, mais meridional, a América hispânica, com suas raízes indígenas - "nossa América", na expressão afetuosa, possessiva e belicosa de Martí.

Martí viveu em Nova York durante os anos 1880 e início dos 1890 e às vezes gostava da cidade. Mas também concluiu, com respeito à América Latina, que os EUA eram governados, na formulação de Krauze, por "ignorância e cobiça". Martí conspirou contra a Espanha imperial em favor da independência de Cuba. Mas ele temia que, tão logo Cuba fosse livre, os ignorantes e cobiçosos ianques poderiam acabar impondo uma nova tirania. Martí morreu em 1895, um mártir precoce da rebelião de Cuba. Três anos depois, os Estados Unidos intervieram e, com um piparote, também conhecido como Guerra Hispano-Americana, demoliram o que sobrara do império espanhol. E um estremecimento de medo percorreu a América Latina.

O medo trêmulo é algo que nunca foi apreciado em nossa América de fala inglesa. Nós nos lembramos do Maine (o navio de guerra USS Maine, cujo afundamento no porto de Havana precipitou a guerra dos EUA com a Espanha), mas pouca coisa mais. O medo era espiritual, e não apenas prático. Era uma repulsa estética. Em 1900, um crítico literário do Uruguai chamado José Enrique Rodó - o segundo objeto da série de retratos de Krauze - publicou um panfleto sombrio sobre esse tópico chamado Ariel, composto em tons grandiloquentes, provavelmente para o leitor se perguntar sobre as amígdalas do homem. Rodó era eloquente, porém. Ele retratou a América Latina como herdeira da antiguidade greco-latina, dotada de uma espiritualidade católica que derivava da escola platônica de adoração mística da beleza. Os Estados Unidos, por contraste, pareciam-lhe inferiores e de uma ignorância crassa, descendendo da abjeção puritana por tudo que era belo. E Rodó defendeu uma resistência jovem, mais próxima de um revival católico ou de um culto da poesia que de qualquer coisa política.

Seu panfleto se mostrou duravelmente influente - o que, aliás, ilustra a razão de Martí sobre a ignorância ianque, dado que nos Estados Unidos quase ninguém ouviu falar de Ariel, por José Enrique Rodó. No México, um filósofo chamado José Vasconcelos, cujo retrato vem em seguida, apanhou as ideias de Rodó e as levou mais longe, ainda pelo misticismo platônico e outros voos da fantasia. Vasconcelos foi secretário da Educação do México no início da década de 20, o que significou que, durante algum tempo, suas teorias se tornaram também uma doutrina revolucionária oficial. Mas mesmo depois que Vasconcelos deixou o cargo, ideias como as dele e de Rodó se provaram fecundas. A vigorosa autoconfiança da literatura latino-americana durante nosso próprio tempo deve algo a esses escritores - à sua convicção de que a literatura pode se contrapor à injustiça e à feiura e redimir o mundo.

Krauze observa, por outro lado, que o fervor da América Latina pela revolução e redenção amiúde descambou para os terrenos pantanosos da direita e da esquerda autoritárias. Martí era um autêntico liberal, e Rodó também invocou a tradição liberal, embora com reservas aristocráticas. Mas Vasconcelos, na sequência de sua vida, mostrou simpatias nazistas. Os retratos do livro de Krauze revelam uma pessoa após outra, nem todas elas intelectuais, sucumbindo a tentações desse tipo, por vezes na direita (Eva Perón), por vezes na esquerda (Che Guevara), por vezes em um estilo mais vago, ou, na expressão de Krauze, "pós-moderno" (Hugo Chávez, Subcomandante Marcos e outros). O ardor de Gabriel García Márquez por Fidel Castro deixa Krauze desencantado.

Mas Krauze é intenso também ao expor alguns exemplos contrários temíveis. Ele admira Mario Vargas Llosa, o escritor peruano ganhador do Prêmio Nobel, ainda que, num comentário ou outro de passagem, se aborreça com a simpatia recente de Vargas Llosa pelo movimento Tea Party nos Estados Unidos.

Mas seu principal exemplo, que ocupa quase um terço do livro, é o poeta e crítico mexicano Octavio Paz, uma figura espetacular, que pode ter ido mais longe do que qualquer outro na articulação das grandezas do pensamento político e literário da América Latina. Paz queria revelar a sociedade para si mesma mediante atos de introspecção filosófica; convocar os fantasmas do passado indígena; e desbloquear os segredos da história pelo escrutínio da poesia de vanguarda. A intensidade dessas ambições torna a leitura de Paz eletrizante, ao menos para mim.

Krauze enfatiza, porém, que Paz também tentou se afastar da embriaguez revolucionária - ainda que, do ponto de vista de Krauze, com um progresso muito lento. Krauze lamenta. Mas é possível que em sua ambiguidade sobre Paz vislumbremos os propósitos de Krauze também, dado que, quando jovem, ele trabalhou como assistente de Paz e acabou por herdar sua revista, o que coloca Krauze, o historiador brilhante, mas equilibrado, na posição de clamar um legado de Paz, o poeta surrealista, como grande intérprete da alma latino-americana.

A maior parte do livro de Krauze foi traduzida para o inglês por Hank Heifetz, e uma parte por Natasha Wimmer. Eles são tradutores talentosos com realizações admiráveis. Mas temo que em Os Redentores a lucidez da prosa espanhola de Krauze e de citações sortidas de outros escritores às vezes desapareçam sob uma névoa luminosa, como se o para-brisa do carro tivesse embaçado. Os leitores de Krauze terão de ter um pouco de paciência aqui e ali. Mas isso não deve ser difícil. Há muito que os apreciadores de romances reconheceram que latino-americanos em ânimo narrativo estavam produzindo algumas das ficções mais vigorosas do mundo. Os Redentores levanta a possibilidade empolgante de que latino-americanos, em política, fizeram igualmente algo digno de atenção mundial. Eles tentaram, com sucesso irregular, mas incansável brio, enfrentar o vasto enigma, político e cultural, de uma era moderna que acabou dominada pelo poder magnético dos Estados Unidos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

PAUL BERMAN É O AUTOR DE THE FLIGHT OF THE INTELLECTUALS (RANDOM HOUSE) E POWER AND THE IDEALISTS (WW NORTON), ENTRE OUTROS LIVROS

OS REDENTORES

Tradução: Madga Lopes, Cecilia Gouvea Dourado, Gabriel Federicci

Ed.: Benvirá (704 págs., R$ 54,90)

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