Internet e crises ameaçam livrarias da Europa

Na Espanha, mais de cem espaços fecharam as portas desde 2009; no Reino Unido, foram 400 falências só em 2012

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2014 | 02h35

No coração de Barcelona, a Llibreria Catalònia não resistiu e fechou no ano passado, depois de 88 anos de existência. Ela havia sobrevivido à Guerra Civil, a um incêndio e transformações políticas. Mas não resistiu à pior crise na Europa em 70 anos, somada à mudança radical gerada pela internet no hábito de consumo dos leitores e as grandes redes comerciais. O local de 800 metros quadrados passaria a ser um McDonald's.

Em toda a Europa, centenas de livrarias estão fechando as portas em Barcelona, Londres, Lisboa, Roma ou Paris, num movimento que não considera nem a tradição nem o papel literário que esses lugares ocuparam para esses países.

Em Barcelona, a Catalònia registrou uma queda de 40% de suas vendas desde 2009. "Sobre a crise geral se soma ainda a crise do livro", explicou Miquel Colomer, ex-gerente da Catalònia. Para ele, porém, não é o e-book que está matando as livrarias, mas sim a distribuição pela internet, fenômenos como a Amazon e ainda o fato de que as pessoas simplesmente deixaram de comprar guias de turismo ou outros livros técnicos, além, obviamente, da taxa recorde de desemprego no país.

Sua livraria não foi a única a fechar as portas. A tradicional Rumor, no bairro de Chamartín, em Madri, também seguiu o mesmo caminho. No início deste ano, foi a Altair que não aguentou depois de 17 anos de atividade na capital espanhola. Em Barcelona, a livraria Anocray Delfin, aberta em 1956, também acabou fechando.

De acordo com a Confederação Espanhola de Livreiros, mais de cem livrarias encerraram atividades pelo país desde 2009. Mais de 1,2 mil postos de trabalho foram abolidos e pelo menos outras 500 livrarias, de um total nacional de 3,5 mil, estão ameaçadas. Em cinco anos, as vendas desse setor caíram pela metade.

Em Portugal, outro país que atravessou uma profunda crise, o número de "vítimas" supera a marca de 120 desde 2007. A ideia de que se poderia passear por toda Lisboa indo de livreiro em livreiro está cada vez mais ameaçada. Algumas das mais tradicionais, como a Sá da Costa no Chiado, não resistiram depois de quase cem anos de história. Nem mesmo um manifesto que circulou por Portugal, em 2013 restabeleceu o lugar. "A zona do Chiado foi cenário de uma devastação", declarou o comunicado dos moradores locais.

Mas um dos maiores impactos foi sentido no Reino Unido. Segundo dados da Experien, em 2005 existiam 4 mil livrarias no país. Em 2013, esse número caiu para apenas 1,8 mil. Só em 2012, foram 400 falências registradas, sete vezes mais que em 2011. Considerando apenas as livrarias independentes, o número, pela primeira vez em 30 anos, ficou abaixo de mil. Em fevereiro 2013, eram 1.028 lojas. Em janeiro de 2014, o número já era de 987.

Para Tim Godfray, representante da Booksellers Association, não há dúvidas de que o cenário para os livreiros é dos mais desafiadores. Mas ele insiste: "Essa não é a história do fim das livrarias". Segundo ele, considerando as vendas de e-books e de livros físicos entregues em casa, a realidade é que o mercado do livro do Reino Unido continua a crescer.

Um estudo da empresa Mintel, de fato, confirma a projeção de Godfray. Mas insiste que o que mudou foram "os hábitos de compras de livros" por parte dos clientes. De acordo com um levantamento da companhia, mais da metade dos entrevistados diz comprar a maioria de seus livros pela internet.

Na França, a realidade é parecida e as redes de distribuição online já ocupam 15% de todo o mercado editorial do país. Desse total, 70% é dominado pela Amazon, com a Fnac vindo na segunda posição.

Essa nova realidade afetou em cheio quem não estava preparado. Dezenas de outras lojas foram obrigadas a passar por uma forte restruturação ou mesmo fechar as portas, como ocorreu com a rede Chapitre, que fechou 57 lojas pelo país e viu seus funcionários ocuparem de forma pacífica os locais para protestar. Isso depois que a Virgin também foi obrigada a fechar seus negócios na França.

Mas foi na Grécia, assolada por seis anos de recessão, que o fechamento de uma livraria levou a uma comoção nacional, em 2013. Em março do ano passado, a Estia, no centro de Atenas, sucumbiu depois de 128 anos de história. A falência foi denunciada por políticos de oposição e escritores. Mas, sem um plano de resgate e sem ter se adaptado à era da internet, o local não teve outra opção.

Curiosamente, uma vez por mês, saudosos clientes se reúnem nas proximidades da rua Solonos, número 60, para homenagear a Estia, que tem a sua trajetória confundida com o percurso da literatura grega moderna.

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