Internet cria nova cultura, diz filósofo

Para o filósofo italiano Gianni Vattimo, autor de O Fim da Modernidade (Martins Fontes), a Internet, além de produzir uma nova economia, está ajudando a construir uma nova cultura. "É uma época de transição, em que ainda estamos atentos às mudanças; a nova cultura, digital, guarda muitos traços da velha, o que é bom, enriquecedor; ainda há muitas tarefas a realizar", afirma.Vattimo esteve no Rio na semana passada, discutindo o futuro do livro num colóquio internacional realizado na Academia Brasileira de Letras. Entre um debate e outro, distribuiu autógrafos, ajudou brasileiros a treinar o italiano e concedeu entrevistas.Na sua opinião, os novos meios à disposição dos artistas estimulam a criatividade. Qualquer música já gravada pela humanidade tornou-se, com os programas de edição eletrônicos, uma obra completamente aberta, "disponível" a todo tipo de releitura prática. O teatro, com a projeção digital de cenários, viveria também mudanças significativas. Mas, além da aplicação de novas técnicas nas artes do passado, essa evolução também deve dar origem, acredita, a novos meios de expressão artística.Mais meios à disposição podem significar o aparecimento de mais gênios? É difícil responder, argumenta Vattimo. Mas, certamente, o maior número de obras à disposição nos fará pensar sobre o significado da excepcionalidade numa sociedade de classes. "O mundo está cheio de poetas que não encontram editores; há riscos, mas acho que a criatividade é estimulada", avalia. Também na sua opinião, apesar de o inglês ser a língua dominante, no mundo digital reina, ainda, a pluralidade. "Preocupa-me o uso que formas modernas de dominação, como o imperialismo, podem exercer sobre essa pluralidade pós-moderna" diz, e menciona o Echelon, suposto programa de espionagem mantido pelos Estados Unidos, Inglaterra e outros países de língua inglesa. "Precisamos da anarquia na web", defende.Museus virtuais - "Não sei apontar o completo significado dos efeitos dos meios digitais sobre a arte; mas me pergunto até que ponto a visita virtual a um museu pode satisfazer o público", diz Vattimo. A Internet e os meios digitais permitiriam uma apreensão de detalhes das imagens muito maior que a permitida pela fotografia e mesmo por uma observação no local. Mas visitar um museu como o do Louvre por meio de computadores significa, também, não ir até Paris. A peregrinação para ver a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, perderia significação, "desritualizando" a obra de arte. Não há o culto à obra, diz, lembrando Walter Benjamin. "É uma perda irremediável?", pergunta. "Não sei responder, mas posso dizer que há, isto sim, uma grande diferença: as vantagens dos novos meios são claras, mas as desvantagens ainda não."Ocorre, reconhece o próprio Vattimo, que já não vemos boa parte das obras para os ambientes em que foram criadas. Todas as coleções de esculturas de santos não nasceram para os museus, mas para as igrejas - o que não impede que sejam admiradas nos museus. O mesmo também poderia se passar, nesse deslocamento em direção à paisagem virtual. Mas essa resposta ainda está sendo elaborada, nas escolhas que fazem diariamente internautas - e viajantes.

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