Interlandi ganha prêmio Moliére

Em Paris, o ator Antônio Interlandi, nascido em São Paulo, é apontado como referência em matéria de reciclagem. Cinco anos depois de trocar a dança "pura e dura" pelo teatro, ele se sente "nas nuvens". E com razão. O musical Les Peines de Coeur d´une Chatte Française, do qual é o ator principal, ganhou a última edição do cobiçado Prêmio Molière. Foi o melhor espetáculo do gênero na temporada 1999/2000. O sucesso fez com que a temporada de Les Peines... fosse prorrogada até fevereiro. A montagem depois viajará. E voltará a Paris na temporada 2001/2002, que se inicia em setembro. Concebida a partir de um conto de Jean-Pierre Stahl, a co-produção franco-italiana foi dirigida por Alfredo Arias e M. Marini. Para interpretar o gato Brisquet, fonte dos males da história, Antônio foi escolhido entre 250 atores, em um teste. Jabuticabeira carregada - "Fiquei atônito ao me ver colocado em primeiro lugar, mesmo me sabendo afiado no repertório de canções francesas e italianas, nos monólogos à moda de Dario Fo e nas demais cenas que tive de representar na prova", ele disse. Durante uma folga, Antônio comemorou o Molière em dezembro, sob uma jabuticabeira carregada na fazenda da família, em Jaraguá (Goiás). Há 16 anos não sabia o que era uma jabuticaba tirada do pé. Em 1984 ele trocou São Paulo pela Academia de Dança Clássica de Monte Carlo graças a uma bolsa de estudos que ganhou depois de fazer curso no Ballet Stagium, em São Paulo, e de estagiar no Municipal do Rio. Tinha então 18 anos. Do balé ao musical - Foi contratado pela companhia Les Ballets de Monte Carlo, com a qual, durante seis anos, participou de turnés internacionais. Com vontade de mudar após tanto tempo de Gisele, O Lago dos Cisnes e Copélia, em 1991 Interlandi foi de Monte Carlo para Hamburgo, onde o coreógrafo norte-americano John Neumeier, que já o conhecia, desenvolvia uma linha de criação moderna. Depois de atuar por quatro anos em produções memoráveis pela Europa, Estados Unidos e Japão, entre elas A Paixão Segundo São Mateus, Requiem e Sonho de uma Noite de Verão, Antônio teve a chance que iria ampliar sua trajetória. Foi chamado para o elenco de On the Town, comédia musical de Leonard Bernstein. Cantou e atuou, além de dançar. Já vinha estudando canto desde que chegara à Europa. Encerrada a carreira do musical, Antonio mudou-se para Paris. Era o final de 1995. Prestou concurso e foi admitido na École du Théâtre National de Chaillot, sob direção de Jérôme Savary. Então descobriu Racine, Faydeau, Labiche, Victor Hugo, Rimbaud. E passou a estudar voz com Nita Klein, com quem ainda trabalha. "Por mais que o artista domine uma lingua estrangeira", diz, "há sutilezas idiomáticas, nuances da prosódia e da semântica que precisam ser buriladas", observa. Daí em diante, Antônio atuou em peças de Molière, Shakespeare, Racine, Pirandello, e em musicais de sucesso, como Les Z´années Zazous, La Fièvre des Années 80, Les Voix Liées Chavirent Nougaro, e La Vie Parisienne, de Jacques Offenbach. Entre 97 e 98 fez uma ponta no filme O Homem da Máscara de Ferro, de Randal Wallace, com Leonardo DiCaprio. E uma cena com Juliette Binoche em Les Enfants du Siècle, filme de Diane Kurys. Antônio pensa agora em unir dança, canto e teatro. Para tanto, quer a colaboração do diretor e dramaturgo Jean Gilibert, a quem admira, e com quem já trabalhou. Ele gostaria de criar um espetáculo a partir dos sonetos de Shakespeare. Ou de teatralizar o Diário de Nijinski. Enquanto amadurece os projetos pessoais, estuda convites para participar de diversos espetáculos, como uma ópera que William Sheller e René de Ceccaty acabam de compor. E o ator pretende continuar trabalhando com Alfredo Arias, que admira intensamente. Mas no final de 2000, tudo o que o ator paulistano almejava era aproveitar a pausa na carreira de Les Peines de Coeur... e vir ao Brasil.Na viagem a Goiás encontrou a família. Tem três irmãos músicos. Seus pais, Sebastião Interlandi e Jeanne Marie de Freitas, professora de jornalismo da Escola de Comunicações e Arte da USP desde sua fundação, mandaram isolar na fazenda em Jaraguá a área das jabuticabeiras carregadas. Todos os cuidados foram tomados para que Antônio Interlandi pudesse matar a vontade de comer jabuticabas no pé, (uma das predileções dos personagens de Monteiro Lobato), em comemoração ao prêmio Molière, que ele ajudou sua companhia a conquistar no ano passado.

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