Reprodução
Reprodução

Interesse pelos Brics faz obras do Brasil serem destaques de leilões em NY

Dos 114 lotes oferecidos nas sessões do leilão da Phillips de Pury, 42 são criações de brasileiros

TONICA CHAGAS - ESPECIAL PARA O ESTA,

21 de maio de 2012 | 09h25

NOVA YORK - Nos leilões de arte latino-americana que começam hoje e vão até quinta-feira, em Nova York, a maior estimativa de preço é para Niña en Azul y Blanco (Retrato de Juanita Rosas a Los Diez Años de Edad), um Diego Rivera de 1939 para o qual a Sotheby’s presume alcançar entre US$ 4 milhões e US$ 6 milhões. Mas uma obra de Adriana Varejão ilustra a capa do catálogo da Phillips de Pury; a capa do da Christie’s exibe um óleo sobre tela raro de Portinari; e a Sotheby’s ainda tem um trabalho de Sérgio Camargo entre os dez lotes com estimativa mais alta de preço.

Tamanho destaque para a arte brasileira não é coincidência. Segundo os consignatários, trata-se de uma tendência que reflete na área artística o fortalecimento econômico dos países agrupados no acrônimo Brics - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. “O mercado internacional começa a ficar atento ao que pode ser um grande boom”, observa o inglês Henry Allsopp, especialista em arte contemporânea, chefe internacional da Phillips para a América Latina e responsável por leilões temáticos com obras de arte originária dos quatro primeiros países do grupo, realizados em Londres em 2010 e no ano passado.

Dos 114 lotes oferecidos nas sessões de hoje e amanhã do leilão da Phillips de Pury, 42 são obras de artistas brasileiros. “Nosso objetivo é destacar a enorme profundidade e sofisticação da arte produzida no país mais importante da América Latina”, diz Allsopp. Na opinião dele, “desde os neoconcretos, a arte contemporânea brasileira está ombro a ombro com a europeia e americana, algo que está chamando atenção agora”, como consequência do processo que levou o Brasil a passar o Reino Unido e tomar a posição de sexta maior economia do mundo.

“É um fenômeno feliz porque a arte ganha peso nessa equação”, considera Kátia Mindlin Leite Barbosa, presidente da Sotheby’s Brasil. A filial da corporação criada em Londres há mais de dois séculos foi aberta em São Paulo no fim do ano passado, depois das de Hong Kong e Moscou. Tanto quanto mercado para vendas, Kátia vê o País como “um celeiro de talentos que está sendo descoberto tardiamente”. Mas, pelo acompanhamento de leilões internacionais, ela percebe que “os preços para obras brasileiras aumentaram de três anos para cá e, quem tem, já considera a venda porque terá lucro”.

Allsopp conta ser “apaixonado pela arte brasileira” desde que viu uma exposição de Hélio Oiticica em Londres, em 1994. Por isso acrescenta como fatores para aumento desse interesse exposições recentes como a de Mira Schendel no MoMA, em Nova York, e a de Lygia Pape no Reina Sofía, de Madri, além da visão que artistas como Adriana Varejão e Beatriz Milhazes, líderes em termos de cotação, ganharam passando a ser representadas por galerias internacionais. A dificuldade para ampliar a captação e circulação da arte brasileira pelo mundo estaria na força do próprio mercado interno, segundo o mexicano Virgilio Garza, chefe do Departamento de Arte Latino-americana da Christie’s. Isso explicaria a razão de grande parte das obras oferecidas nos leilões de Nova York ter procedência de outros países.

Açougue Song, mídia mista sobre tela de Adriana que está na capa do catálogo da Phillips, é consignação de um colecionador americano. Criado em 2000, o quadro tem valor estimado entre US$ 500 mil e US$ 700 mil - o segundo mais alto na seleção da casa depois da escultura Reclining Woman with Drapery, de 2004, do colombiano Fernando Botero, avaliado entre US$ 600 mil e US$ 800 mil. Navio Negreiro, quadro que Portinari pintou em Paris, em 1950, e foi adquirido naquele mesmo ano pelo embaixador brasileiro Jaime de Barros, pertence a familiares do diplomata que residem nos Estados Unidos, segundo informa Garza. Avaliada entre US$ 700 mil e US$ 900 mil, a pintura de Portinari está entre os dez lotes com estimativa mais alta de preço no leilão da Christie’s.

Com o mesmo destaque, Hommage à Fontana, que Sérgio Camargo construiu em Paris, em 1967, vem de uma coleção particular escandinava e tem preço estimado pela Sotheby’s entre US$ 600 mil e US$ 800 mil.

É mais provável que essas obras continuem fora do Brasil. Se forem adquiridas por colecionadores brasileiros, “terão o valor do frete agregado e, com os impostos de importação cobrados no País, o preço delas sobe em torno de 45%”, explica a presidente da Sotheby's brasileira.

O grito foi marco em ano de recordes

Os leilões de arte nesta temporada de primavera em Nova York ficaram marcados pelo valor estonteante pago por um pastel de O Grito, do norueguês Edvard Munch. Levado por US$119,9 milhões na venda de obras impressionistas e modernas da Sotheby’s, uma das quatro versões do quadro (Munch criou dois desenhos e dois óleos com a mesma imagem) abocanhou o recorde atual de preço pago por obra de arte em venda pública. Com perto de US$ 1,5 bilhão na soma das vendas na Sotheby’s, na Christie’s e na Phillips de Pury, outros recordes marcaram a temporada, principalmente para artistas contemporâneos.

Em parte graças ao preço alcançado pela obra de Munch, o total obtido pela Sotheby’s no leilão de arte impressionista e moderna chegou a US$ 330,5 milhões - quase o dobro dos US$ 170,5 milhões de maio de 2011. Foi o maior que a casa já registrou para esse segmento e o segundo mais alto de todos os tempos, depois dos US$ 362 milhões de maio de 2008.

O preço pago pelo quadro de Mark Rothko Orange, Red, Yellow, de 1961, com estimativa entre US$ 35 milhões e US$ 45 milhões, só ficou atrás do de O Grito. Saiu por US$ 86,8 milhões no leilão de arte do pós-guerra e contemporânea da Christie’s e estabeleceu novo recorde neste segmento.

A Christie’s considera este leilão histórico para a categoria. Além do quadro de Rothko, 5 dos 10 lotes que obtiveram preço mais alto na sessão noturna, em que são oferecidas as obras mais valiosas, marcaram recorde de preço em leilão para seus autores: Yves Klein, Jackson Pollock, Barnett Newman, Gerhard Richter e Alexander Calder. O total de vendas naquela sessão foi de US$ 388,5 milhões - o mais alto até agora no segmento.

Na Sotheby’s, o leilão de arte contemporânea totalizou US$ 330,6 milhões, com recordes de preço para obras de Roy Lichtenstein, Cy Twombly, Mark Grotjahn, Glenn Ligon, Mark Bradford, Ai Weiwei e Isa Genzken. Na Phillips de Pury, com venda total de US$ 86,8 milhões, registraram-se recordes para Jean-Michel Basquiat, Seth Price e Dana Schutz.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.