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Intelectuais: modo de usar

Conhecimento é poder e controle do conhecimento é sempre um projeto de poder

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2017 | 03h00

É possível dizer que os franceses inventaram o intelectual. Nem tanto a atividade, mas a palavra em si. O termo pode ter sido cunhado em 1864, em Chevalier des Touches, de Barbey d’Aurevilly. O conceito ressurgiria em 1879 em Guy de Maupassant e, em 1886, seria empregado por Léon Bloy. As informações são fornecidas por um exemplo de intelectual, Umberto Eco, no livro Papé Satàn Aleppe (Record, 2017). 

O termo só ficou corrente com o famoso caso Dreyfus. O militar francês de ascendência judaica, Alfred Dreyfus, foi acusado de espionagem pró-império alemão. Em processo duvidoso, foi condenado e exilado na Ilha do Diabo. A discussão sobre sua culpa galvanizou a França entre 1894 e 1906, junto a debates acalorados similares ao Brasil de hoje nos quesitos política ou exposições de arte. Tocado pelo “affair”, Émile Zola escreveu um célebre artigo intitulado Eu acuso (J’Accuse), em 1898. A ação de Zola a favor da inocência de Dreyfus marcou, em definitivo, o modelo de intelectual atuante em grandes causas públicas. 

Bruxuleia a chama do erudito humanista, trancado no scriptorium e mergulhado em volumes de erudição. Refulge a ação do intelectual, um dinâmico vulcão de ideias e de atitudes. Jean-Paul Sartre, ao tomar posição pública sobre episódios como a guerra na Argélia, é herdeiro da concepção do filósofo-jornalista, com raízes em Voltaire no século 18. 

O conceito foi expandido pela reflexão do italiano Antonio Gramsci, em especial em sua ideia de “intelectual orgânico”. O novo intelectual, o orgânico, “não pode mais consistir na eloquência, motor exterior e momentâneo de afetos e das paixões, mas numa inserção ativa na vida prática, como construtor, organizador, ‘persuasor permanente’, já que não apenas orador puro – mas superior ao espírito matemático abstrato”. A citação, retirada dos Cadernos do Cárcere, encontra-se no Dicionário Gramsciano (organização de Guido Liguori e Pasquale Voza, editora Boitempo).

Gramsci dá, à esquerda, um sentido de missão transformadora que Marx já havia indicado no século anterior. Em polo político oposto, Thomas Sowell reclama, exatamente, da vontade intelectual de emitir opinião sobre tudo. Para o norte-americano, ser especialista em algum tema não confere a ninguém a capacidade de emitir opiniões sobre tudo. Crítico do modelo que encontra em Noam Chomsky seu arquétipo, o livro Os Intelectuais e a Sociedade é uma metralhadora giratória contra os resultados desastrosos, para Sowell, da tentativa intelectual de guiar a opinião pública. 

O que ocorreu nos últimos anos foi a difusão de um gramscianismo universal à esquerda e à direita. A tônica atual é “lacrar”, neologismo para encerrar uma discussão com argumentos retumbantes. Escasseiam fontes de informação e abunda o fluxo subjetivo da minha consciência. Emerge a doxa (a opinião) em milhares de blogs e memes. Tanto a direita como a esquerda estão empenhadas na missão civilizadora/destruidora.

O primeiro objetivo do esforço é óbvio. Conhecimento é poder e controle do conhecimento é sempre um projeto de poder. Há vários projetos em choque hoje no Brasil e muitas pessoas empenhadas na implantação do seu respectivo modelo. 

O segundo é mais complexo. Aumentam os tradicionais gramscianos de esquerda com os novos (perdão pelo oxímoro) gramscianos de direita em meio à capilarização do saber. Zola era um conhecido literato. Gramsci era renomado filósofo. Sowell é economista que passou por Harvard, Columbia e Stanford. Que esses nomes escrevam e falem é quase natural. A internet deu o estatuto de intelectual orgânico a todos que tiverem acesso à rede. É o eclipse do conhecimento em si e o despontar da militância catequética.

Querem um exemplo? Um jovem estudante manda e-mail e diz que eu sou arauto do pensamento gramsciano de extrema esquerda. Pergunto o quanto ele explorou dos textos do filósofo sardo. Em mais dois e-mails estimulados pela minha curiosidade, descubro que ele não sabe, de fato, quem foi Gramsci e jamais leu uma linha do inimigo de Mussolini. Em algum lugar da internet, ele leu que gramsciano é toda pessoa crítica que não vota no candidato que ele considera bom. Quero enfatizar: mesmo não dispondo de uma pesquisa empírica, suspeito que a ignorância das fontes seja comum a gramscianos de esquerda e de direita. É o velho axioma: existem mais nietzschianos do que leitores de Nietzsche, mais marxistas do que estudantes de Marx e mais tomistas do que versados no teólogo dominicano. 

Volto a Umberto Eco. A internet possibilitou tudo isso. Junto desse novo conceito de intelectual, surgiu o ressentimento contra o erudito que levou duas décadas ou mais na formação lenta e paciente. Não apenas estamos superficiais, porém nossa subjetividade narcísica nos tornou muito arrogantes. Ouço, a cada curva das redes, o grito de “vá se tratar” diante da discordância de uma ideia. Se você não concorda comigo, é sinal claro de que é um imbecil e, mais, deve ter problemas mentais, o que me alça à confortável posição de ser a única criatura racional e equilibrada da Via Láctea. Terrível solidão do deserto da vaidade!

Eu acuso, como Zola, que todos nós, intelectuais ou não, estamos atacados de uma demência grave prevista pelo Alienista de Machado. Está dando vontade de dormir e acordar daqui a cem anos para ver se passou o delírio. Bom domingo a todos vocês!

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