Intelectuais discutem atentado

E os intelectuais, como têm se comportado diante dos últimos acontecimentos? O saldo tem sido positivo. As melhores cabeças não se enrolaram na bandeira americana nem perderam a perspectiva histórica dos atentados do dia 11. Tampouco se eximiram de levantar questões que nem as bombas no World Trade Center conseguiram implantar na cabeça do presidente Bush. A questão do mal, por exemplo. Bush usa e abusa dessa palavra, com uma assustadora dose de leviandade. "Sempre a usam quando não se consegue explicar o que de fato aconteceu", observou o crítico de arte e expert em pós-modernismo Hal Foster, na edição especial da London Review of Books que acaba de sair, com depoimentos de seus mais ilustres colaboradores. Satanizar é fácil. E perigoso. Como fácil e perigosa é tentação da vingança babilônica, da lei de Hamurabi e a lei de Talião: olho por olho, dente por dente. Fácil, perigosa e inútil, conforme salientou dia desses, no El País, o escritor mexicano Carlos Fuentes, convicto de que de represália em represália, acabaremos sugados por uma "espiral incontrolável de violência". Em escala mundial. Se pratica o mal quem mata inocentes, os terroristas islâmicos não estão sozinhos nessa liga. Charles Glass, intelectual que mora em Jerusalém e viaja muito pelo Oriente Médio, viu os atentados nos EUA pela televisão, horrorizou-se, enlutou-se, mas nem por isso deixou de lembrar os que viu de perto: "Na Líbia, quando aviões americanos atingiram gente dormindo e desarmada; no Iraque, quando o governo americano enviou correspondência com explosivo para o ditator iraquiano, matando gente que antes fora estimulada por Washington a pegar em armas para depor Saddam Hussein; no Líbano, quando um navio de guerra americano bombardeou um punhado de casas; na Somália, quando o governo americano decidiu armar os somalis, condenando-os à extinção mútua; e nos territórios palestinos ocupados pelas forças israelenses em 1967, onde armas e dólares americanos ajudaram a confiscar terras e impor regras aos nativos." Para Glass, todas essas "vítimas do mal" também tinham direito a clamar por vingança, como agora estão fazendo os americanos. "Não sei o que é mais assustador: se o horror que engolfou Nova York ou a retórica apocalíptica da Casa Branca", confessou Eric Foner, preocupado com as evidentes ameaças que pairam sobre as liberdades civis na América. "Fazia tempo que políticos reacionários e autoridades repressoras esperavam uma oportunidade para implantar nos EUA um estado policial a serviço dos interesses das grandes corporações. Os terroristas islâmicos lhes deram uma boa desculpa", comentou Gore Vidal na TV italiana. "Pranteemos nossos mortos, sim, mas não sejamos estúpidos", exortou Susan Sontag, na New Yorker da semana passada. Estúpidos de engolir a oratória maniqueísta, a fúria irracional, arrogante e vindicativa das ruas, a manipulação das emoções pela mídia e a confusão que se estabeleceu entre conceitos como guerra e terrorismo, bem e mal, civilização e barbárie, covardia (os camicases podem ser tudo, menos covardes) e heroísmo (é preciso incluir entre os heróis da América a deputada Barbara Lee, único membro do Congresso dos EUA a votar contra os atos de guerra de Bush). Guerra é um conflito entre Estados ou nações. Osama bin Laden não representa Estado algum. O que estamos vendo é uma mobilização militar contra uma rede de terroristas, semelhante à "guerra" contra as drogas (que fracassou) e não à Guerra do Golfo, Vietnã, Coréia, etc. Contra uma rede de terroristas, mas não contra o terrorismo tout court, já que isso implicaria estender as ações dos americanos ao Reino Unido (contra o IRA) e à Espanha (contra o ETA), em nenhum momento cogitadas. A comparação dos atentados do dia 11 ao ataque a Pearl Harbor foi outra hipérbole. Por trás do ataque a Pearl Harbour havia de fato um império, que, além do mais, atacou sem aviso prévio, ao contrário dos terroristas comandados ou influenciados por Bin Laden, que, não custa lembrar, fizera uma declaração de guerra aos EUA em fevereiro de 1998. Porque somos crias da cultura americana, que tantos momentos de prazer nos deu e dá, por certo nos repugna a idéia de um mundo inteiramente dominado pelo fanatismo islâmico, irracional, intolerante, teocrático/ideocrático, agônico, sem cinema, TV, jazz e outros civilizados deleites, com aqueles energúmenos martelando a cabeça com o punho, interpretando malevolamente o Alcorão e sem nada a oferecer às nossas necessidades de alegria, felicidade e estesia. Mas os fanáticos são a exceção e, por isso, não devem ser tomados como modelos representativos da cultura, da civilização islâmica. Sim, eles representam a barbárie. Mas como qualificar os americanos que contribuíram para a morte de quase meio milhão de crianças no Iraque, os israelenses que trucidaram 17.500 civis durante a invasão do Líbano em 1982 e as ditaduras sanguinárias que os EUA apoiaram, armaram e financiaram pelo mundo afora nos últimos 50 anos? Aliás, onde mora a barbárie? Tem ela residência fixa? Que língua ou línguas fala? Terry Eagleton propôs um embate curioso: de um lado, "os fundamentalistas fanáticos de Montana"; do outro, "a sabedoria de artistas como Naguib Mahfouz ou Abd al-Hakim Qasim". Nesse embate, por exemplo, a barbárie mora no interior dos EUA, fala inglês e não faz a menor idéia de quem sejam Mahfouz e Qasim. É bastante provável que Bush também desconheça esses dois orgulhos da civilização árabe. A cultura não é o forte desse texano de poucas luzes, deficiência que os marqueteiros da presidência vêm tentando dissimular, até agora sem sucesso. Horas depois de sua furiosa fala no Congresso, ele desfilou pelos jardins da Casa Branca gestualizando com uma das mãos um tiro de revólver e trazendo um livro debaixo do braço. Estaria tentando forjar para si próprio a imagem de um caubói intelectual e humanista? O único caubói intelectual que conheço é o ator e dramaturgo Sam Shepard. Talvez seja mais fácil o Taleban permitir que suas mulheres andem nas ruas de biquíni do que Bush virar um intelectual humanista. Até ontem, ao menos, ele continuava falando como sempre falou. Ou seja, como Bruce Willis. O excelente crítico de cinema da New Yorker Anthony Lane reviu em vídeo Nova York Sitiada e comprovou uma suspeita: quase todas as bravatas do presidente, desde os atentados, foram (inconscientemente?) plagiadas daquele profético disaster movie - razão pela qual já lhe deram o merecido apelido de Bush Willis. O fim da inocência dos americanos é outro tema que escritores, poetas, artistas e pensadores têm discutido com enorme freqüência. "O vôo 175 da United Arlines era um míssil intercontinental apontado para a inocência americana, uma ilusão anacrônica e um luxo", escreveu no El País o escritor britânico Martin Amis. O poeta polonês Czeslaw Milosz, Nobel de literatura em 1980, incomodava-se à beça com a vocação para avestruz dos americanos, com sua crença de que nenhuma desgraça, salvo as naturais, podia atingi-los; que jamais precisariam purificar-se através do que Milosz chamava de "sofrimento histórico"; que lhes bastava fechar os olhos e virar as costas para o resto do mundo, pois Deus tomaria sempre conta da redoma, cuidando para que as bombas caíssem sobre outros lugares e outras gentes. A redoma quebrou, explodiu, a inocência pode ter acabado, mas a arrogância, infelizmente, permanece intacta. Dia desses, a CNN mostrou um histérico chofer de táxi nova-iorquino, gritando: "Vamos mostrar ao mundo que nós ainda somos o número 1!" O que mais precisa acontecer para amansar o húbris americano?

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