Intelectuais apóiam Zé Celso

O geógrafo Milton Santos e filósofa Marilena Chauí são os mais novos aliados do diretor José Celso Martinez Corrêa em sua luta pela preservação do Teatro Oficina, ameaçado pela construção do Shopping Bela Vista Festival Center, de propriedade do empresário Silvio Santos. Milton Santos e Marilena Chauí - ambos vencedores do Prêmio Multicultural 2000 Estadão Cultura - vão participar nessa quinta-feira à noite, no Teatro Oficina, de uma espécie de conselho deliberativo que contará com a presença de José Guilherme de Castro, representante do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). Participam ainda do debate - aberto ao público - o geógrafo Aziz AbSaber, os arquitetos Paulo Mendes da Rocha, Edson Elito e Joaquim Guedes, o ator Sérgio Mamberti, o diretor Hugo Possolo, o dramaturgo Aimar Labaki e a atriz Bete Coelho. Como amanhã é dia de São Pedro, Zé Celso vai acender uma grande fogueira no centro do Oficina - o fogo do conselho -, às 19 horas. O músico José Miguel Wisnick vai interpretar, ao piano, a canção Inverno, às 21 horas, senha para o início do debate. "A minha casa é maloca rasgada no futuro/ é inverno é o eterno enquanto duro/ osso duro osso duro/ que ninguém há de roer", são alguns versos da canção.Para Zé Celso, o confronto entre o Oficina e o shopping do dono da rede de televisão SBT é representativo de um embate muito mais amplo. "A luta do Brasil nação contra o Brasil mercadão". É o espaço da criação artística e crítica contra o espaço do consumo. Enquanto o Oficina - desenhado para ser uma passagem, uma espécie de praça no Bixiga - representa o espaço público e democrático, o shopping reforça o apartheid econômico e social. "É difícil convencer um empresário que a luz, a água, o fogo e o ar, elementos fundamentais ao Teatro Oficina, sejam mais importantes do que a construção de um shopping".Não há dúvida de que, se for construído o prédio desenhado pelo arquiteto Júlio Neves - um centro de compras e lazer de oito andares com direito a uma torre com vista panorâmica -, as características arquitetônicas do Oficina estarão desfiguradas.Patrimônio - A mobilização dos intelectuais não deveria ser o único obstáculo no caminho de Silvio Santos. Afinal, o Oficina foi tombado pelo Patrimônio Histórico em 1982 e, pelas normas estabelecidas pelo Condephaat, nenhuma obra pode ser feita no entorno de 300 metros de cada imóvel tombado. No entanto, o próprio Condephaat - que ressaltou não só a importância arquitetônica, como também artística do Oficina no parecer de tombamento - aprovou a obra de Silvio Santos em 1997."O parecer para aprovação foi apocalíptico, na linha se está ruim, deixa ficar pior", diz Zé Celso. A alegação foi de que a área já estaria degradada pelos elevados e prédios construídos no entorno. Mas nem tudo está perdido. Uma reportagem do jornalista Alceu Luís Castilho, publicada no jornal O Estado de S.Paulo, sobre a disputa entre o Grupo Silvio Santos e o diretor Zé Celso chamou a atenção do procurador da Justiça Daniel Finc, que abriu um inquérito para investigar o caso. "O surgimento desses jovens procuradores, éticos e inteligentes, está entre as mudanças positivas percebidas no País", diz Zé Celso.Amanhã à noite, a partir das 19 horas, Zé Celso vai autografar o livro Lina Bo Bardi, Teatro Oficina - Oficina Theatre, uma publicação bilíngüe - português/inglês - com textos de Lina Bo Bardi, Edson Elito e Zé Celso. Fartamente ilustrado, o livro documenta a transformação arquitetônica do histórico prédio e, principalmente, resgata a importância do Oficina para o teatro brasileiro, narrando passo a passo a aventura de uma criação artística e simbólica fundamental para o Brasil. A história de uma luta vitoriosa apesar do insistente e concomitante cerceamento das censuras ideológica e econômica.

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